A nova edição do CEO Outlook 2025, pesquisa global da KPMG, mostra que estamos vivendo um momento em que a liderança corporativa precisa se reinventar. A combinação de incertezas econômicas com tensões geopolíticas e aceleração tecnológica está pressionando os líderes a reverem prioridades, atualizar seus métodos de gestão e repensar o que realmente impulsiona o crescimento sustentável. Os dados são transparentes: 72% dos entrevistados disseram já ter ajustado os planos de crescimento das empresas que eles lideram, mas ainda existe um debate sobre quais competências são mais importantes para navegar esse contexto.
A agilidade na tomada de decisão, a comunicação transparente e a capacidade de gerenciar riscos aparecem como as habilidades mais valorizadas. Estas exigências refletem uma nova dinâmica empresarial, em que mudanças acontecem em ciclos mais curtos, exigindo respostas rápidas, coordenadas e fundamentadas em dados. No Brasil, diferente de países desenvolvidos, isso se traduz em desafios cotidianos, como a necessidade de reestruturar modelos de negócio com maior flexibilidade, responder a oscilações do mercado interno e externo e fortalecer a governança para proteger a operação.
Outro ponto de destaque da pesquisa revela as principais barreiras para um crescimento equilibrado. O crime cibernético segue como o principal risco citado pelos CEOs, atingindo 79% das respostas. Em seguida, aparecem a necessidade de aprimorar habilidades da força de trabalho em inteligência artificial (IA) e a integração efetiva dessa ferramenta ao negócio, ambos com índices superiores a 75%. Em outras palavras, os líderes reconhecem que a tecnologia é indispensável, mas percebem que sua implementação ainda é desafiadora, especialmente, quando depende de infraestrutura adequada, segurança de dados e equipes preparadas.
Apesar das incertezas, o estudo ainda mostra que há espaço para confiança e planejamento. O percentual de CEOs que acreditam na melhora da economia global sofreu apenas uma leve oscilação — de 72% para 68% — e isso não impediu que a maioria mantivesse os planos de crescimento das empresas. O foco em talentos deixa isso explícito: 92% dos entrevistados pretendem ampliar seus quadros de funcionários nos próximos doze meses. Esse movimento evidencia o entendimento de que crescimento depende de competências novas, especialmente, daquelas relacionadas à tecnologia e à digitalização.
Além disso, 40% dos CEOs projetam aumento superior a 2,5% na lucratividade no próximo ano, enquanto 89% estão dispostos a realizar fusões e aquisições. No cotidiano das empresas brasileiras, isso significa oportunidades de expansão, integração e diversificação, sobretudo para que organizações estejam preparadas para capturar sinergias e ganhar eficiência.
Sete em cada dez CEOs afirmam que a IA estará entre os principais focos de investimento até 2026, e uma parcela significativa planeja direcionar entre 10% e 20% do orçamento corporativo à sua implementação já no próximo ano. No entanto, o entusiasmo vem acompanhado de cautela: 59% demonstram preocupação com questões éticas, 52% com a qualidade e prontidão dos dados e metade deles com a falta de regulamentação. Esses números demonstram que a tecnologia só se sustenta quando apoiada em governança responsável, em processos sólidos e em pessoas capacitadas.
A agenda de sustentabilidade entrou também como compromisso dos líderes. Cerca de 60% dos CEOs se dizem confiantes no cumprimento das metas de redução das emissões de gás carbônico até 2030, um salto importante em relação aos 51% registrados no ano anterior. Empresas brasileiras já percebem que competitividade global depende de práticas sustentáveis, seja para atender investidores, seja para responder a exigências de mercado, seja para preservar sua reputação.
Com alguns tópicos mencionados, creio que a palavra mais adequada para concatenar os temas seja a de disrupção. Os líderes que encontrarem oportunidades na disrupção destes assuntos serão mais assertivos em tecnologia e talentos, ao mesmo tempo em que manter atenção às responsabilidades éticas, regulatórias e sociais é fundamental para a evolução do negócio.
Diante dessa prospecção de cenário, torna-se evidente que a solução prática para os negócios passa por integrar três frentes de forma coordenada: tecnologia, capacitação e governança. As empresas que adotarem modelos operacionais mais ágeis, estruturarem programas contínuos de desenvolvimento de habilidades — especialmente, em dados e inteligência artificial — e fortalecerem sua arquitetura de gestão de riscos estarão mais preparadas para transformar disrupção em vantagem competitiva.
Artigo escrito por Charles Krieck, que é presidente da KPMG no Brasil e na América do Sul.
