Por que a convergência de tensões políticas, revolução tributária e a onipresença da IA fará do próximo ano o teste definitivo para a resiliência corporativa no Brasil.
Se o calendário corporativo permitisse previsibilidade, muitos executivos talvez escolhessem pular o ano de 2026. Mas, para a liderança que se prepara, ele promete ser o palco de uma reinvenção sem precedentes. Aproxima-se um período de inflexão brutal para os negócios no Brasil. Não estamos falando de desafios isolados, mas de forças convergentes: uma “tempestade perfeita” onde a escassez crítica de talentos colide com a polarização das urnas, enquanto a complexidade operacional da Reforma Tributária se entrelaça com a chegada definitiva de robôs humanoides e inteligências artificiais generativas aos escritórios.
Para os C-Levels, conselheiros e dirigentes empresariais, a mensagem é inequívoca: o modelo de gestão “business as usual” não sobreviverá. O ano exigirá uma liderança ambidestra, capaz de apagar incêndios táticos com uma mão enquanto desenha o futuro estratégico com a outra. Será preciso equilibrar a implementação de tecnologias futuristas com a gestão de ansiedades humanas muito reais; a necessidade de compliance fiscal rigoroso com a volatilidade de um ano eleitoral.
“Navegar em 2026 não será sobre evitar a tempestade, mas sobre ajustar as velas enquanto o barco é reconstruído em mar aberto.”
A seguir, as quatro forças tectônicas que moldarão este ano decisivo: pessoas, política, impostos e tecnologia, e como transformá-las de ameaças iminentes em vantagens competitivas duradouras.
1. O paradoxo do capital humano: a corrida contra a obsolescência
A dinâmica do trabalho vive uma metamorfose acelerada, gerando um cenário paradoxal e cruel para o gestor: sobram vagas, mas faltam pessoas qualificadas. Dados globais indicam que 87% dos empregadores reportam dificuldades em encontrar talentos com as competências necessárias. Setores-chave enfrentam um apagão de mão de obra que faz projetos inovadores patinarem e posições estratégicas ficarem abertas por meses.
No entanto, o problema não é apenas de recrutamento; é de relevância. Do outro lado da mesa, a força de trabalho atual treme diante da obsolescência. O Fórum Econômico Mundial lançou uma projeção alarmante: até 2025, 50% de todos os trabalhadores precisariam passar por requalificação (reskilling) devido à adoção de novas tecnologias. O profissional sente essa pressão na pele: quase metade teme que suas competências se tornem irrelevantes em poucos anos.
A cultura como estratégia de sobrevivência
A resposta das empresas líderes tem sido clara: investir na formação interna. Universidades corporativas e parcerias educacionais deixaram de ser benefícios “nice-to-have” para se tornarem imperativos de sobrevivência operacional. Consultorias estimam que a “meia-vida” de uma habilidade profissional encolheu drasticamente, exigindo atualizações anuais.
Contudo, o buraco é mais embaixo. A tecnologia não falha por bugs de software, mas por resistência humana. Estima-se que 70% das iniciativas de mudança fracassam não pela técnica, mas pela cultura. Com o engajamento global caindo para níveis preocupantes (apenas 31% nos EUA, segundo a Gallup) e a confiança na integridade corporativa em queda (Edelman Trust Barometer), o CEO de 2026 precisa ser, antes de tudo, um “Chief Culture Officer”.
O líder deve reconquistar corações e mentes. Em um ambiente de transformação, a equipe precisa confiar que a empresa está investindo nela, e não apenas em máquinas para substituí-la.
“Requalificar pessoas deixou de ser uma linha de custo no RH para se tornar a única estratégia viável de sobrevivência operacional. Quem não forma, não entrega.”
2. A arena política: gerenciando a volatilidade sem paralisia
Se o ambiente interno exige cuidado, o externo exige sangue-frio. O Brasil entrará em 2026 sob o signo da polarização extrema. Com eleições gerais marcadas para outubro, o clima político promete ser hostil. Pesquisas recentes indicam que 83% dos brasileiros enxergam o país mais dividido hoje do que no passado.
Para o ambiente de negócios, o risco imediato dessa divisão não é apenas ideológico, mas prático: a “lei do mínimo esforço” legislativo. Historicamente, em anos eleitorais, pautas econômicas estruturais e reformas impopulares entram em hibernação. Privatizações, ajustes fiscais severos e novas regulamentações tendem a ficar travadas até que as urnas definam os vencedores.
O perigo da inércia estratégica
A armadilha para o empresário é a paralisia. Relatórios de agências de risco, como a Fitch Ratings, já apontam para setores como o varejo adotando uma postura cautelosa de “esperar para ver”. No entanto, líderes astutos sabem que o mercado pune a inércia. A volatilidade cambial e as incertezas sobre a direção da política econômica, continuidade ou guinada, exigem agilidade.
A estratégia vencedora para 2026 baseia-se no Planejamento de Cenários Múltiplos. Independentemente de quem vença, 2027 exigirá disciplina fiscal para controlar uma dívida pública que se aproxima de 80% do PIB. O líder deve preparar o caixa para oscilações, proteger-se com hedge cambial e manter planos de investimento modulares, prontos para serem acelerados ou freados conforme o cenário político se desenha.
Além disso, há um papel cívico e de liderança setorial a ser desempenhado. Empresários influentes podem e devem atuar como pontes de diálogo, defendendo a continuidade de agendas de estado (como a modernização administrativa) que não podem ficar reféns de agendas de governo.
“Na polarização de 2026, o maior risco para o líder não é o resultado das urnas, mas a paralisia causada pelo medo do cenário. O mercado não espera a apuração dos votos.”
3. O “Sandbox” tributário: o teste de fogo do compliance
Enquanto a política faz barulho, uma revolução silenciosa, técnica e perigosa estará em curso nos departamentos financeiros. 2026 marca o início da transição prática da Reforma Tributária. Será um ano de “laboratório” (o chamado sandbox tributário), onde os novos impostos (CBS e IBS) começarão a ser testados com uma alíquota simbólica, convivendo simultaneamente com o cipoal de tributos antigos.
A aparente simplicidade dessa alíquota de teste esconde um pesadelo operacional. Para pagar a alíquota simbólica corretamente e aproveitar o período de adaptação, as empresas precisarão ter seus sistemas de ERP, faturamento e compliance fiscal totalmente ajustados aos novos layouts de notas fiscais e regras de apuração.
O risco de “apagão” operacional
Quem subestimar esse período de adaptação pagará caro. Pesquisas indicam que 93% das grandes empresas veem a adequação de sistemas e dados como seu maior desafio. A realidade é dura: empresas que passaram décadas customizando sistemas para lidar com o ICMS e ISS agora precisam rodar, em paralelo, a lógica do IVA dual.
O risco aqui é existencial. Falhas na emissão de documentos fiscais podem paralisar vendas, travar o transporte de mercadorias e gerar multas pesadas. O compliance tributário deixará de ser uma dor de cabeça burocrática do departamento fiscal para se tornar uma pauta estratégica de tecnologia e governança.
Empresas de vanguarda já estão utilizando simuladores tributários (como os desenvolvidos por consultorias) para modelar, com base em seus dados reais, como a reforma impactará cada linha de produto e unidade de negócio. Isso permite renegociar contratos e ajustar preços antes que a cobrança chegue de forma integral em 2027.
“Em 2026, a eficiência tributária não será medida apenas pela economia de impostos, mas pela capacidade tecnológica de se manter operando sem falhas.”
4. A nova fronteira: quando a IA ganha corpo (literalmente)
A quarta força é talvez a mais transformadora. A promessa da Inteligência Artificial finalmente encontrou a realidade operacional. Se até agora falávamos de chatbots, 2026 será o ano da consolidação da IA Generativa e a emergência da IA Física.
A Democratização da Inteligência
Do lado do software, ferramentas como copilotos de código e assistentes virtuais estão democratizando o acesso a dados. O Gartner prevê que, até 2026, 90% dos colaboradores que hoje apenas consomem relatórios passarão eles mesmos a gerar análises e conteúdos com auxílio de IA. Isso libera o talento humano do “braçal cognitivo”, a formatação de planilhas, a redação de e-mails básicos, permitindo foco total em criatividade, estratégia e relacionamento.
A chegada dos robôs
Mas a revolução também terá corpo físico. Robôs humanoides e automação avançada começam a sair das fábricas para interagir em escritórios, hotéis e centros de distribuição. Com o custo de produção dessas máquinas caindo cerca de 40% em um ano e fábricas (como a da Agility Robotics) prontas para produzir milhares de unidades, a visão de robôs circulando nos corredores da empresa deixa de ser ficção científica. A Deloitte chama isso de era da “Physical AI”.
O desafio da liderança é ético e arquitetural. Como desenhar uma organização onde humanos e máquinas colaboram em vez de competir? Como garantir que decisões algorítmicas mantenham a empatia humana e evitem vieses discriminatórios? A resposta está na visão de “Humanos + Máquinas”, e não “Máquinas no lugar de Humanos”. Líderes visionários estão criando comitês de ética em IA para governar essa transição.
“A verdadeira revolução não é a máquina substituir o homem, mas o líder que usa IA superar, inevitavelmente, o líder que a ignora.”
Liderança 2026: da retórica à ação efetiva
Unindo todos esses fios, Pessoas, Política, Impostos e Tecnologia, desponta um retrato claro: 2026 será um divisor de águas. Será um teste de resiliência, adaptabilidade e visão estratégica, em que cada desafio traz embutido uma oportunidade de diferenciação.
Enquanto alguns verão apenas problemas e custos, líderes esclarecidos enxergarão a chance de atrair os melhores talentos justamente ao oferecer trilhas de desenvolvimento numa era de escassez; de ganhar mercado em meio à incerteza política ao tomar decisões ousadas (porém calculadas) enquanto concorrentes esperam; de otimizar margens ao navegar habilmente pela reforma tributária; e de impulsionar a produtividade ao abraçar a IA de forma responsável.
Para atravessar este ano com sucesso, o “kit de sobrevivência” do líder deve conter quatro ações práticas:
- Comunicação radical: Seja para tranquilizar equipes sobre o impacto da IA ou dialogar com investidores sobre o cenário macroeconômico, o líder deve ser o principal comunicador. Transparência gera confiança em tempos de caos.
- Cultura de aprendizado contínuo: Investir nas pessoas é o único antídoto contra a obsolescência tecnológica. Uma equipe que aprende rápido se adapta a qualquer crise.
- Agilidade nos cenários (planos A, B e C): Abandonar o planejamento estático. A liderança deve guiar times financeiros e estratégicos a modelarem respostas rápidas para surpresas políticas ou atrasos regulatórios.
- Ética de dados e humanismo: Em um mundo inundado por IA, o diferencial será o julgamento humano. Decisões baseadas em dados são vitais, mas o filtro ético e a empatia continuam sendo monopólio das pessoas.
Em conclusão, 2026 desponta como um ano desafiador, mas potencialmente transformador. As crises forjam as maiores oportunidades, e este cenário complexo está montando o palco para que uma nova geração de líderes protagonistas assuma o comando.
Nas palavras adaptadas do Fórum Econômico Mundial: o futuro pertence às organizações cujos líderes colocarem as pessoas no centro, sejam colaboradores, clientes ou a sociedade, usando a tecnologia e as mudanças a favor desse objetivo.
“O futuro não pertence a quem prevê o cenário perfeito, mas a quem constrói a organização mais adaptável para qualquer cenário que vier.”
Artigo escrito por Edson Teixer, que é diretor executivo da ANEFAC Rio de Janeiro.
