Naquele balcão de loja, naquele dia, quase nasceu uma estudante universitária. Mas não. Naquele dia, não houve promoção. Não houve conversa. Não houve justiça. E foi exatamente isso, “o não”, que adiou um sonho.
Essa história é real. A protagonista, hoje advogada, naquela época uma jovem atendente de loja sonhando com a faculdade, precisava da promoção para ter um aumento de salário que a possibilitasse pagar a mensalidade. Mas a promoção não veio. E, com ela, também não veio a matrícula. Porque, às vezes, é o que não acontece que muda tudo.
A gente fala muito das grandes decisões que transformam uma carreira, mas pouco se fala dos silêncios, das oportunidades negadas e da liderança que não permite a promoção.
Schlossberg (1981) chamaria isso de não-evento: uma transição sutil que desmonta certezas e exige reconstrução. Mas, em cada transição, mora tanto o risco de cair quanto a chance de crescer.
E como canta Flávio José, na música “Natureza das Coisas”:
“Se avexe não, amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada.”
Inclusive, a promoção que não veio. Inclusive, a esperança que se adia. Inclusive, o gestor que ensina pelo exemplo ou pela ausência dele, e daquele outro que escuta, enxerga e corrige a injustiça em um tempo futuro, te dando oportunidades para além das esperadas anteriormente.
Entre um tudo e um nada, às vezes, está só você tentando não se perder de si.
Há uma fronteira entre dois períodos de estabilidade: o não de hoje pode separar você do sonho de amanhã, mas o não de hoje também pode te fazer ir para um caminho que será ainda melhor, e quem sabe não é esse não de hoje que você precisa para construí-lo?
Reconhecer o peso dos “não-eventos” é fundamental para compreender como nossas carreiras se constroem, não apenas pelo que acontece, mas também pelo que deixa de acontecer.
Não é o que não pode ser, será? Às vezes, ele tem que ser, porque é ele que construirá o futuro.
Nos vemos em 2026 com muitos eventos e não-eventos.
Obrigado, Cris, pela história compartilhada.
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Lord Excrachá é uma criação de Emerson W. Dias, head de diversidade e inclusão da ANEFAC e fundador do portal e da série de livros O Inédito Viável.
