A próxima década não promete exuberância, mas consistência. Segundo o Long-Term Capital Market Assumptions (LTCMA) – Edição 2026, publicado pelo J.P. Morgan Asset Management (Nova York, 2025), o mundo financeiro entra em uma fase de reconstrução de fundamentos após anos de liquidez abundante e distorções provocadas por juros artificialmente baixos.
Esta leitura analítica parte desse relatório para refletir sobre o novo equilíbrio entre risco e retorno, sem pretensão de ser uma recomendação de investimento, mas uma interpretação dos vetores que moldarão o mercado nos próximos anos.
A nova era do retorno com substância
O ciclo de juros baixos ficou para trás. As taxas reais positivas restituem à Renda Fixa um papel de destaque, resgatando sua função original: oferecer rendimento com substância e previsibilidade.
Títulos soberanos e corporativos voltam a compor o núcleo de portfólios sólidos, sustentando o equilíbrio entre segurança e crescimento.
Na prática, a Renda Fixa deixa de ser uma “reserva de liquidez” e passa a ser fonte legítima de retorno real ajustado ao risco, especialmente relevante para investidores institucionais e executivos financeiros que gerem carteiras com horizonte de longo prazo.
A seletividade das ações e o retorno da disciplina
Com o crescimento global convergindo para cerca de 2,5% ao ano, segundo o LTCMA 2026, o mercado acionário deixa de ser impulsionado pela expansão de múltiplos e passa a depender da geração de lucro sustentável.
A performance de longo prazo migrará de um movimento sistêmico para uma curadoria ativa de setores e geografias: tecnologia produtiva, energia de transição, saúde e infraestrutura, segundo o relatório, são as frentes com maior potencial de eficiência e produtividade.
A valorização de empresas fora do eixo dólar, especialmente em mercados com valuations mais racionais, pode abrir oportunidades consistentes para quem adota visão estratégica e paciência de capital.
Ativos reais: âncoras de proteção e valor
A terceira perna desse novo equilíbrio está nos ativos reais como imóveis, infraestrutura, private equity e crédito privado.
Em um cenário de inflação estruturalmente acima da meta tradicional e riscos geopolíticos persistentes, esses ativos funcionam como instrumentos de ancoragem contra choques sistêmicos.
O desafio, como lembra o relatório, não é apenas encontrá-los, mas selecionar os que combinam lastro real, governança, liquidez e eficiência tributária.
Nem todo ativo alternativo é, de fato, uma boa alternativa.
As três forças estruturais
O pano de fundo dessa transição é moldado por três forças simultâneas identificadas pelo J.P. Morgan:
- Nacionalismo econômico, que redefine cadeias de produção e fronteiras de investimento.
- Ativismo fiscal, que recoloca o Estado como ator central no estímulo e na regulação do crescimento.
- Aceleração tecnológica, que amplia a produtividade, mas também concentra ganhos e exige capital inteligente.
Esses vetores mantêm o crescimento global moderado, porém com inflação mais resiliente e diferenciação regional acentuada. O investidor disciplinado, aquele que compreende onde o retorno é estrutural e não episódico, tende a prosperar nesse novo ambiente.
O que muda na mentalidade do investidor
A década passada premiou a ousadia. Esta premiará a consistência estratégica.
A maturidade financeira será medida pela capacidade de combinar resiliência, diversificação e qualidade de retorno. Mais do que antecipar o futuro, trata-se de preparar-se para múltiplos futuros possíveis, um princípio que transforma o planejamento de portfólios em exercício de construção de robustez, e não de adivinhação.
Artigo escrito por Guilherme Dultra, head de finanças da ANEFAC
Fonte: J.P. MORGAN ASSET MANAGEMENT. 2026 Long-Term Capital Market Assumptions. New York: J.P. Morgan Asset Management, 2025. 95 p.
Disponível em: https://am.jpmorgan.com/us/en/asset-management/ltcma. Acesso em: 20 out. 2025.
Este artigo reflete uma interpretação analítica do autor com base no relatório citado e não constitui recomendação de investimento.
