Nos últimos meses, o Brasil convive com indicadores que parecem falar de países diferentes. Em setembro, isso se repetiu. Enquanto o IBGE informou que a taxa de desemprego caiu para 5,3% no trimestre encerrado em agosto, o menor nível para o período desde o início da série da Pnad Contínua, em 2012, o Banco Central mostrava que a inadimplência média das operações de crédito subiu para 5% em agosto, novo recorde da série iniciada em março de 2011. Quem leu só a primeira notícia certamente comemorou. Quem leu só a segunda notícia provavelmente se assustou. Os dois leram errado, porque não há contradição nenhuma aí. Há um diagnóstico.
O país chegou a 103,5 milhões de ocupados, 39,5 milhões de trabalhadores com carteira assinada e 68,5 milhões de contribuintes da Previdência, todos recordes. O rendimento médio real ficou em R$ 3.777, alta de 3,7% em um ano. São números positivos, e mostram a resiliência de um mercado de trabalho que resiste em meio a uma desaceleração econômica pronunciada.
No entanto, esse mesmo trabalhador não está em condições financeiras confortáveis. A inadimplência das famílias no crédito livre chegou a 8% em agosto, maior nível da série do BC, com alta de um ponto percentual em relação a agosto de 2025. Entre as pessoas físicas, o índice geral chegou a 6%, também recorde. O comprometimento da renda ficou em 28,7%, máximo da série, enquanto o endividamento das famílias atingiu 49,9% em julho. Quase trinta centavos de cada real que entra em casa saem direto para pagar parcelas, juros e amortizações. Fora do sistema bancário, o quadro se repete: a Serasa contabiliza 83,9 milhões de negativados, o maior número da série, depois de cerca de vinte meses seguidos de alta.
Como um país com emprego recorde produz calote recorde? A primeira resposta está na natureza do emprego. Estar ocupado, no Brasil, não significa ter renda suficiente para pagar as contas ou mesmo atravessar um choque. São 38,8 milhões de trabalhadores na informalidade, sem proteção, com renda média baixa que oscila, e sem acesso a crédito barato. E a inadimplência mora exatamente aí: 48% dos inadimplentes ganham até um salário mínimo. O emprego tenta sustentar o consumo do mês. Nem sempre consegue.
A segunda resposta é o preço do dinheiro. A Selic ficou estacionada em 15% entre julho de 2025 e janeiro de 2026, o maior patamar em quase duas décadas, e mesmo depois de quatro cortes está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro. Descontada a inflação esperada, estamos falando de um juro real na casa dos 8% ao ano, entre os mais altos do mundo. Para a família, a conta é muito pior: a taxa média do crédito livre para pessoas físicas chegou a 61,7% ao ano em agosto, e o rotativo do cartão subiu de 436,2% para 444,9% ao ano. O Brasil virou uma esteira: todo mundo está correndo, o placar do emprego prova que ninguém parou, mas quem regula a velocidade é o juro. E ele está correndo muito mais rápido do que a economia.
A terceira resposta é o tempo. Emprego é sempre o último indicador a mudar, enquanto o resto da economia já mudou. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, depois de 1,1% no primeiro. O IBC-Br recuou 0,2% em julho, acumulando queda de 0,3% no trimestre. O crédito também perdeu fôlego: segundo o próprio BC, o crescimento do saldo passou de 12% em maio de 2025 para 9,2% agora, e as concessões de crédito livre para pessoas físicas caíram 2,1% em agosto. As famílias entram na desaceleração econômica já alavancadas, com a renda comprometida e o nome sujo. É a pior posição possível para receber uma desaceleração econômica.
Nada disso é acidente, e é aqui que o debate precisa deixar de ser técnico para ser político. O juro está onde está porque, durante anos, o Banco Central foi deixado sozinho carregando o piano. Uma política fiscal que expande gastos sem âncora crível, que estimula a demanda com transferências e crédito subsidiado sem mexer na capacidade de oferta, empurra a economia contra um teto baixo de produtividade. O resultado é inflação resistente e expectativas desancoradas; o próprio Copom registrou que as projeções do Focus para a inflação de 2026 e 2027, de 4,9% e 4,3%, seguem acima da meta. A conta volta em forma de juro, e o juro cai no colo de quem tem menos margem.
Por isso o desemprego baixo precisa ser lido com cuidado. Numa economia de produtividade estagnada, mercado de trabalho apertado não é sinal de prosperidade: é sinal de que batemos no limite do que conseguimos produzir. Crescemos aumentando a mão de obra, forçando o trabalhador, e não aumentando a capacidade de produzir. E um país que cresce assim produz exatamente o que estamos vendo: renda baixa, capacidade produtiva limitada e mobilidade social travada. A família que deveria estar poupando para a faculdade do filho está renegociando o cartão. O crédito, que poderia ser ponte para investimento ou para programação de consumo, virou substituto de renda. Dívida cara não sobe ninguém de classe social: ela apenas adia a queda.
Não se trata de demonizar o crédito, muito menos de negar os ganhos do mercado de trabalho. O acesso ao crédito é uma conquista, e emprego formal recorde também. O problema é a fundação sobre a qual isso acontece. O próximo presidente vai herdar um país empregado e endividado ao mesmo tempo, e vai ser tentado a repetir a receita de sempre: mais estímulo à demanda, mais crédito direcionado, mais promessa. É a receita que nos trouxe até aqui, e que não nos livrará dessa herança.
O brasileiro nunca trabalhou tanto, e o placar do emprego está aí para provar. Mas enquanto a política econômica continuar regulando a velocidade pelo improviso fiscal e compensando com juros, vamos seguir suando para ficar exatamente onde estamos. Ou, como mostram os números do Banco Central, escorregando devagar para trás.
Artigo escrito por Juliana Inhasz, head de economia da ANEFAC, coordenadora do Insper One e professora de macroeconomia e macroeconometria.