Profissionais do Ano ANEFAC: os ganhadores falam sobre mercado, gestão e liderança

O reconhecimento marca um momento. A trajetória, porém, é construída ao longo dos anos, a partir de decisões, desafios e da capacidade de gerar impacto em contextos cada vez mais complexos. Nesta edição, a Revista ANEFAC conversou com os ganhadores do Prêmio ANEFAC Profissional do Ano 2026 para compreender as experiências, aprendizados e visões que sustentam suas lideranças.

Em entrevistas concedidas à publicação, os executivos refletem sobre as transformações de seus setores, os desafios da gestão contemporânea e os valores que orientam suas decisões. Mais do que relatar conquistas, os depoimentos revelam diferentes perspectivas sobre liderança, estratégia e o papel dos profissionais na construção de organizações mais preparadas para o futuro.

“A liderança é uma evolução natural do cuidado”, diz Jeane Tsutsui

Quando ingressou no Grupo Fleury, em 2001, como médica cardiologista, Jeane Tsutsui iniciou uma trajetória que a levaria das atividades assistenciais e de pesquisa ao comando de uma das maiores empresas de saúde do país. Ao longo de mais de duas décadas, acumulou experiências em pesquisa e desenvolvimento, gestão do conhecimento, direção médica e negócios, construindo uma carreira marcada pela combinação entre ciência, inovação e gestão. 

Desde que assumiu a presidência da companhia, em abril de 2021, em meio aos desafios da pandemia de Covid-19, o Fleury ampliou investimentos em tecnologia, avançou no uso da inteligência artificial, fortaleceu sua estratégia de crescimento e manteve indicadores financeiros conservadores. Nesta entrevista à Revista ANEFAC, a executiva compartilha sua visão sobre liderança, tomada de decisão baseada em evidências, transformação digital e criação de valor de longo prazo. 

Revista ANEFAC: Você começou sua trajetória no Fleury como médica cardiologista, passou por pesquisa e desenvolvimento, direção médica e negócios até chegar à presidência. Em que momento percebeu que precisava deixar de pensar predominantemente como médica e passar a pensar como uma líder empresarial? E o que de sua formação médica, especialmente a capacidade de analisar evidências e tomar decisões sob pressão, continua sendo decisivo na sua forma de liderar? 

Jeane Tsutsui: Essa transição não representou um rompimento abrupto, mas uma ampliação da minha visão sobre o ato de cuidar, algo que eu já exercia nas diferentes funções que desempenhei no Grupo Fleury. Ao passar pelas diretorias de Pesquisa e Desenvolvimento, Gestão do Conhecimento, Diretoria Médica e Diretoria de Negócios, percebi que a liderança corporativa é uma evolução natural do cuidado, com impacto direto na saúde das pessoas, incluindo clientes, colaboradores, médicos parceiros e na sustentabilidade do setor. 

Para que essa transição acontecesse de forma consistente, senti a necessidade de investir em uma formação executiva sólida em instituições como FIA, Harvard, Wharton e MIT Sloan. Essa trajetória me permitiu traduzir o conhecimento clínico e técnico para a linguagem do mercado financeiro e dos ambientes corporativos, sem abrir mão da centralidade no paciente e da essência humanitária que orienta minha atuação. 

Ao longo desse caminho, dois pilares permaneceram centrais. O primeiro é a tomada de decisões baseada em evidências. Assim como a prática médica exige rigor analítico na avaliação de dados e diagnósticos, a gestão demanda a mesma disciplina científica para embasar decisões estratégicas e orientar a alocação de capital com segurança. O segundo pilar é a capacidade de atuar sob pressão e gerir crises. A experiência no atendimento clínico e em situações de emergência nos prepara para agir com calma, clareza e empatia diante da incerteza. Esse aprendizado foi especialmente importante quando assumi a presidência da companhia, em abril de 2021, no auge da pandemia de Covid-19. 

Revista ANEFAC: Você construiu uma carreira que combina medicina, ciência, inovação e gestão e hoje lidera uma das maiores empresas brasileiras de saúde. Se pudesse voltar a 2001, quando entrou no Fleury como médica, sabendo tudo o que sabe hoje, qual decisão profissional teria tomado mais cedo? E qual conselho daria para uma jovem profissional que deseja, daqui a dez ou quinze anos, ocupar uma posição de liderança como a sua? 

Jeane Tsutsui: Acredito que cada trajetória seja única e esteja relacionada também às oportunidades que escolhemos aproveitar ao longo da carreira. De forma geral, costumo aconselhar os jovens profissionais a construírem uma base técnica sólida e a manterem a curiosidade permanente, especialmente aqueles que desejam avançar para posições de liderança executiva. 

A profundidade técnica e o aprendizado contínuo são fundamentais para construir a credibilidade necessária para liderar profissionais de excelência. Outra recomendação é desenvolver um estilo próprio de liderança, baseado em escuta ativa, empatia, inteligência emocional e construção colaborativa. Inspirar-se em bons exemplos é importante, mas não é necessário reproduzir modelos tradicionais de comando e controle. 

Também considero essencial manter um alinhamento constante entre propósito e valores. A longevidade em posições de alta responsabilidade depende da conexão entre os valores pessoais e a missão da organização. 

Além disso, é fundamental ocupar espaços e assumir riscos. É importante estar preparado para atuar em áreas estratégicas, especialmente nas frentes ligadas a STEM, ciência, tecnologia, engenharia, matemática e inovação, sem receio de aceitar desafios fora da zona de conforto. 

Revista ANEFAC: O Fleury já utiliza dezenas de aplicações de inteligência artificial e vem investindo fortemente em tecnologia. Na sua visão como CEO, qual é o ponto em que a IA deixa de ser simplesmente uma ferramenta de eficiência e passa a mudar efetivamente o modelo de negócio da companhia? E onde você ainda vê mais promessa do que resultado concreto? 

Jeane Tsutsui: No Grupo Fleury, a inteligência artificial já atua como uma importante alavanca de eficiência operacional. Atualmente, contamos com mais de 50 aplicações em rotinas médicas e logísticas, incluindo a redução de até 50% no tempo de captura de exames de ressonância magnética, a triagem automatizada de casos críticos, como hemorragias intracranianas e embolias, além da economia de 40% em insumos por meio de modelos de machine learning no segmento Lab-to-Lab e da otimização de rotas no atendimento móvel. 

Acreditamos que a verdadeira transformação do modelo de negócio ocorrerá quando a inteligência artificial viabilizar a transição de uma medicina diagnóstica predominantemente reativa para uma medicina preventiva, preditiva e voltada à longevidade. 

Nesse contexto, a combinação entre Big Data e genômica permite utilizar algoritmos avançados para identificar riscos genéticos, biomarcadores e relógios epigenéticos. Isso amplia a capacidade de intervenção preventiva antes mesmo do surgimento de sintomas clínicos, contribuindo para uma gestão mais proativa da saúde. 

Revista ANEFAC: O Fleury praticamente dobrou seu faturamento desde que você assumiu a presidência e construiu uma trajetória importante de crescimento também por aquisições. Ao mesmo tempo, a companhia encerrou 2025 com dívida líquida de R$ 2,18 bilhões e alavancagem de apenas 1,02 vez o EBITDA. Como você define hoje o limite entre aproveitar uma oportunidade de crescimento e preservar a disciplina de capital? Em outras palavras: o que faz você dizer “vamos comprar” e o que faz você dizer “é melhor não comprar”? 

Jeane Tsutsui: Nosso modelo de crescimento combina ambição estratégica com rigorosa disciplina econômico-financeira. Com base nessa premissa, temos encerrado ciclos com forte geração de caixa operacional, mantendo a alavancagem em patamares bastante conservadores, próximos de 1 vez o EBITDA, e retorno sobre o capital investido (ROIC) entre 17% e 17,8%. 

Para que uma aquisição faça sentido dentro da nossa estratégia, é fundamental que exista convergência cultural, alinhamento com os valores da companhia, relevância estratégica e complementaridade dos negócios. 

Um exemplo recente é a aquisição do Unilab, empresa com forte presença na região de Atibaia (SP). Segundo dados do IBGE, o município apresenta crescimento populacional superior à média nacional e figura entre os municípios brasileiros com melhor PIB per capita. 

Outro critério importante é a capacidade de captura de sinergias por meio da geração de valor, da diluição de custos fixos e da preservação das margens e do retorno sobre o capital investido. Esses fatores são determinantes para avaliarmos se uma oportunidade contribui efetivamente para a criação de valor de longo prazo. 

Revista ANEFAC: Mesmo em um ambiente de juros elevados, o Fleury mantém uma alavancagem bastante confortável. Para 2027, diante de um custo de capital ainda potencialmente elevado, qual é hoje a sua prioridade: reduzir dívida, alongar o perfil do endividamento, preservar caixa para novas aquisições ou continuar investindo para crescer? E como você estabelece essa escolha? 

Jeane Tsutsui: O Grupo Fleury continuará sendo guiado pela disciplina financeira e por uma estratégia de alocação de capital equilibrada, sustentada pela previsibilidade da geração de caixa. 

Nossa prioridade permanece sendo a manutenção de uma alavancagem conservadora, em torno de 1 vez o EBITDA, combinada à busca permanente por eficiência operacional. Essa postura nos proporciona flexibilidade estratégica para continuar investindo no crescimento do negócio e, ao mesmo tempo, preservar uma estrutura de capital sólida e resiliente em diferentes cenários econômicos. 

“Criar valor de forma consistente exige visão de longo prazo, disciplina na execução e capacidade de se reinventar”, explica Odivan Cargnin

“A confiança dos investidores é resultado de um trabalho contínuo de disciplina financeira, governança e geração sustentável de valor”, aponta Ozires Kloster 

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