Novidades
Previous
Next

Guerra e eleições continuarão impactando a economia brasileira

Fatores como inflação, escalada da taxa básica de juros e volatilidade cambial aliados a elevação dos preços dos combustíveis e desemprego demandam cautela 

Uma crise após a outra. O Brasil já vinha de um longo período de recessão quando chegou o colapso histórico causado pela pandemia de Covid-19. Ainda hoje, o país está tentando curar as cicatrizes deixadas na cadeia de suprimentos e que afundou o turismo. O golpe seguinte veio do conflito bélico entre Rússia e Ucrânia, que ainda está em curso. Com uma década cada vez mais perdida, a população continua empobrecendo com um poder aquisitivo menor.  

Como se tudo isso não bastasse, 2022 é um ano de eleição e, como historicamente acontece no Brasil, muitos projetos e reformas importantes devem ser empurrados para o próximo ano. Fatores como inflação, escalada da taxa básica de juros e volatilidade cambial aliados a elevação dos preços dos combustíveis e desemprego demandam cautela.  

Em termos de números, o Relatório de Mercado Focus, divulgado em março pelo Banco Central do Brasil (Bacen), mostrou que a previsão mediana para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) desse ano será de 0,49%. Enquanto, o índice inflacionário está acima do teto da meta de 5% estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CNM). A taxa do Sistema Especial de Liquidação de Custódia (Selic), que é considerada a taxa de juros básica da economia e utilizada para controlar a inflação, deve ficar em 12,25% no final de 2022 e 8% no próximo ano. A boa notícia neste cenário é que o país alcançou 70% da população completamente imunizada e mais de 30% com dose de reforço da vacina.  

Na visão de Roberto Luis Troster, sócio do Troster & Associados, doutor em economia pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e pós-graduado em banking pela Stonier School of Banking, que foi economista chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), além de professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e da USP e consultor de empresas, governos e instituições financeiras no Brasil e no exterior, incluindo o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), as perspectivas são de um crescimento fraco. O especialista fala sobre esse e outros assuntos em entrevista à Revista ANEFAC. Confira abaixo. 

Revista ANEFAC: Quais as perspectivas econômicas para o final do primeiro semestre? 

Roberto Luis Troster: A atividade econômica, na média, deve andar de lado. O agronegócio brasileiro deve ter um desempenho positivo, mas outros setores, como a indústria de transformação e a construção civil, terão um crescimento baixo. Para o segundo semestre é razoável antecipar um quadro parecido. 

Muito do resultado depende de como evoluir o conflito bélico entre Rússia e Ucrânia. O mais provável é esperar preços de energia mais elevados, uma redução nas expectativas de crescimento e um aumento nas projeções de inflação e de taxas de juros. O conflito está criando um mundo dividido em dois blocos, com os Estados Unidos da América e Europa em um e China e Índia em outro, menos globalização, o que limita o potencial de crescimento do planeta. 

RA: Como deve se comportar a inflação nos próximos meses? 

RLT: A inflação deve continuar elevada. A média das projeções está em 6,5%, mas esse número deve ser revisto para cima e acabar o ano em cerca de 8,0%. A alta nos preços das commodities e dos combustíveis e a indexação informal tornam a inflação mais resiliente. O Banco Central já sinalizou de que o ciclo de alta de juros está próximo do fim, portanto, a absorção dos choques dos combustíveis e das commodities deve demorar.  

RA: O que deve acontecer com o câmbio? 

RLT: O câmbio deve oscilar. Isso se deve à estrutura do mercado de câmbio, com o futuro mais eficiente do que o à vista, tornando a taxa de câmbio mais sensível as notícias do dia a dia do que dos fundamentos. O razoável, apenas nos fundamentos, é uma taxa na casa dos R$ 4,50, mas a volatilidade vai fazer a taxa oscilar, especialmente sensível ao calendário eleitoral. 

RA: Em termos de crescimento, como deve ficar o PIB? 

RLT: Anêmico. O potencial de crescimento existe: capital humano, empresários capazes, recursos naturais, capacidade ociosa e estabilidade política. Falta um projeto de Brasil e sua execução. Sem isso, vamos crescer menos do que o resto do mundo. A nossa participação no PIB mundial tem diminuído em todas as décadas desde 1980 e o motivo é um só, uma política econômica ruim.  

RA: 2022 é um ano eleitoral, o que esse cenário deve trazer de impacto à economia? 

RLT: Com certeza haverá impacto. Por um lado, a adoção de medidas focadas em melhorar a popularidade do governo neste ano fará com seja deixado para os governos futuros a conta. Por outro lado, as manifestações dos diferentes candidatos e as pesquisas de opinião afetarão o desempenho de indicadores financeiros, em especial da Bolsa de Valores. 

RA: Recentemente, você falou: “não podemos deixar que o projeto de futuro do Brasil fique em Brasília”, o que quer dizer na prática? 

RLT: Na prática significa que a democracia para a maioria dos brasileiros se resume na escolha dos candidatos. Quando deveria se estender a todos, com destaque para as associações de classe, em preparar propostas para um Brasil melhor. Deixar isso como exclusividade para os políticos é perigoso, como tem sido demonstrado nas últimas décadas pela baixa qualidade da política econômica. 

RA: Nem saímos da crise imposta pela pandemia de Covid-19, nem o Brasil e nem o mundo. Se seguirmos nesse cenário atual, quais os resquícios sobre a economia nacional e internacional que ainda sofreremos esse ano?  

RLT: Uma fragilização financeira de países, empresas e cidadãos. Na média, estamos mais pobres e com uma redução na capacidade de crescer. A normalização vai demorar alguns meses e a recuperação, muito mais. Isso impõe ajustes que ainda não estamos fazendo. 

RA: Quais os impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia para o Brasil? 

RLT: Os impactos dependem da escala da guerra. Num primeiro momento, o Brasil ganha com a escalada dos preços de commodities, mas aumenta a pressão inflacionária. As projeções do Focus do Banco Central ilustram isso, indicam um crescimento maior este ano e menor no próximo.  

RA: Os Preços das commodities petróleo e gás natural continuam batendo recordes de aumento no mundo. Quais os reflexos na economia brasileira? 

RLT: O Petróleo mais caro tem um efeito positivo na balança comercial, exportamos mais do que importamos. A pressão na inflação é na veia e forte, quem paga a conta são os mais pobres. Com commodities mais caras, o agronegócio e a balança comercial são favorecidos, mas aumenta a pressão inflacionária. Uma parte é compensada com a valorização do câmbio, mas o efeito é fraco.