A implementação das normas IFRS S1 e IFRS S2, que passam a vigorar para companhias de capital aberto a partir de 2026, marca uma mudança relevante na forma como as organizações divulgam informações relacionadas à sustentabilidade. Diferentemente dos relatórios voluntários historicamente produzidos pelos departamentos de sustentabilidade, os novos padrões internacionais exigem que dados ambientais, sociais, climáticos e de governança sejam incorporados ao processo de reporte financeiro, ampliando o escopo das demonstrações já divulgadas ao mercado e fortalecendo o papel da contabilidade na consolidação e verificação dessas informações.
O IFRS S1 define diretrizes gerais para que as companhias apresentem informações de sustentabilidade que possam influenciar seu desempenho financeiro ou sua avaliação de risco. Já o IFRS S2 estabelece requisitos específicos para divulgação de riscos e oportunidades relacionados ao clima, incluindo cenários de eventos extremos, alterações regulatórias e impactos operacionais derivados de mudanças climáticas. Ao integrar esses elementos aos relatórios obrigatórios, as normas introduzem uma perspectiva prospectiva às demonstrações financeiras, que passam a refletir não apenas resultados passados, mas também fatores que podem afetar a capacidade de geração de valor no médio e longo prazo.
Essa mudança exige reorganização de processos internos e integração mais estreita entre áreas que historicamente atuavam de forma separada. Profissionais de contabilidade passam a consolidar dados que antes estavam concentrados em departamentos de sustentabilidade, riscos e operações, garantindo padronização, rastreabilidade e coerência metodológica. O trabalho conjunto com auditorias independentes também se intensifica, já que o novo relatório exigirá a mesma disciplina de verificação e asseguração aplicada às demonstrações financeiras tradicionais.
No Assaí, as exigências das normas IFRS S1 e S2 não representam uma ruptura, mas sim um aprimoramento de uma agenda que já vinha sendo estruturada pela companhia. A empresa possui uma estratégia consolidada para sustentabilidade e mudanças climáticas, com métricas, governança e processos previamente estabelecidos. Ainda assim, o IFRS demandou adequações — sobretudo ajustes de integração e padronização. Como o apoio de consultoria especializadas, realizamos diagnósticos, análises de maturidade e mapeamento de riscos climáticos e socioambientais. A partir desses estudos, foram definidos planos de ação — incluindo a criação de um grupo de trabalho interdepartamental para garantir maior alinhamento entre Sustentabilidade, Contabilidade, Riscos e áreas operacionais. O objetivo é estruturar um fluxo integrado de informações e preparar a companhia para as exigências de reporte que serão aplicadas a partir de 2026, com a primeira divulgação prevista para 2027.
No ambiente corporativo, a adoção dos padrões IFRS S1 e S2 tende a influenciar modelos de governança, práticas de gestão de risco e processos de tomada de decisão. Ao exigir que informações financeiras e não financeiras sejam apresentadas de forma unificada, as normas ampliam a base de dados utilizada por investidores e demais agentes do mercado, que passam a avaliar as companhias não apenas pelo desempenho já realizado, mas também pela forma como identificam, tratam e monitoram riscos e oportunidades associados à sustentabilidade. Nesse contexto, organizações que estruturarem procedimentos consistentes de reporte e controles internos estarão mais preparadas para atender às novas demandas regulatórias e às expectativas do mercado.
Artigo escrito por Marco Aurélio Bove, diretor de contabilidade do Assaí Atacadista
