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CFO na era da inteligência artificial: investir é importante, executar com disciplina é decisivo 

Durante muito tempo, um dos principais tópicos da missão do CFO foi garantir a implementação de mecanismos que trouxessem previsibilidade financeira para as Companhias onde atuam. Hoje, esse papel sofreu mudanças. Em um ambiente marcado por volatilidade econômica, transformações tecnológicas aceleradas e mudanças geopolíticas constantes, o CFO passou a ser um dos principais responsáveis por equilibrar crescimento, inovação e gestão de riscos. 

Os resultados da edição mais recente do Grant Thornton CFO Survey mostram esse movimento. Mesmo sobre pressões para redução dos custos, a prioridade dos líderes financeiros continua sendo investir em tecnologia. Cerca de dois terços dos CFOs afirmam que pretendem ampliar os investimentos em transformação digital e inteligência artificial nos próximos 12 meses. 

À primeira vista, essa decisão pode parecer contraditória. Em cenário de incertezas, a reação natural é adotar um comportamento mais conservador, com foco exclusivo na redução de despesas/custos. Entretanto, o que os dados revelam é justamente o oposto: os CFOs enxergam que a restrição de investimento em tecnologia pode representar um risco ainda maior para a competitividade do negócio. 

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma agenda de inovação ou uma discussão abstrata. Ela passou a ocupar um espaço estratégico na busca por eficiência operacional, aumento de produtividade e melhor capacidade analítica. Automatizar processos, aprimorar previsões financeiras e acelerar a tomada de decisão são ganhos que já começam a aparecer em diferentes setores.  

Se a velocidade da adoção tecnológica aumenta, cresce também a responsabilidade sobre sua implementação. A pesquisa evidencia uma preocupação importante: embora os investimentos permaneçam elevados, a confiança na capacidade das organizações de executar essas transformações vem diminuindo. Em outras palavras, investir é relativamente simples; transformar investimento em resultado continua sendo o grande desafio. A introdução de evoluções tecnológicas e uso da inteligência artificial devem vir acompanhadas de controles de monitoramento e governança. 

Esse cenário exige uma mudança de postura das lideranças financeiras. O sucesso de um projeto de inteligência artificial não depende apenas da tecnologia escolhida, mas da capacidade de estabelecer critérios claros para medir retorno, definir prioridades, fortalecer controles internos e garantir que a inovação esteja alinhada aos objetivos estratégicos da organização. É justamente nesse ponto que o papel do CFO ganha uma nova dimensão. 

Cabe ao líder financeiro auxiliar e fomentar a criação de mecanismos que permitam a contínua avaliação e monitoramento de cada iniciativa tecnológica com o intuito de captura se a iniciativa está, de fato, gerando valor para o negócio. Em muitos casos, isso significa redirecionar recursos para iniciativas com maior potencial de impacto. 

Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de integrar áreas que tradicionalmente poderiam estar operando de forma independente. Tecnologia, finanças, compliance, gestão de riscos e operações precisam trabalhar de forma coordenada para a inteligência artificial ser incorporada de maneira segura e sustentável. 

Outro aspecto importante é que eficiência não deve ser confundida com cortes indiscriminados de custos. A pesquisa mostra que muitas empresas continuam revisando suas estruturas de despesas, mas as organizações mais resilientes são aquelas que conseguem combinar disciplina financeira com capacidade de investimento. 

Na prática, isso significa substituir uma lógica baseada apenas em contenção por uma estratégia voltada para produtividade, qualidade das decisões e geração de valor no longo prazo. A inteligência artificial tem potencial para apoiar esse processo, desde que sua adoção esteja acompanhada de governança adequada e de indicadores consistentes de desempenho. O CFO eficiente e atual deixa de ser apenas o executivo responsável pelas finanças para assumir um papel cada vez mais estratégico na construção da vantagem competitiva das organizações. 

A tecnologia continuará evoluindo em ritmo acelerado. Novas soluções surgem continuamente e a pressão por inovação seguirá forte e constante. Neste contexto, a diferença entre empresas que apenas acompanham tendências e aquelas que realmente se transformam estará menos na quantidade de investimentos realizados e mais na capacidade de executar esses investimentos com disciplina, visão de longo prazo e foco na geração de resultados.  

Na ambiente de permanente incerteza, essa talvez seja a principal contribuição que um CFO pode oferecer às organizações: transformar tecnologia em valor e inovação em crescimento sustentável. 

Artigo escrito por Marco Aurélio Neves, sócio líder de consultoria da Grant Thornton.

 

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