Muito se fala sobre a importância das práticas ESG adotadas por uma Cia serem parte da cultura corporativa, atuando de modo transversal e capazes de influenciar as decisões e o modo de ser das organizações. No entanto, romper a barreira que permitiria a migração de um tema muitas vezes considerado acessório para o centro da estratégia é uma difícil tarefa. Frequentemente há um entendimento, mesmo que teórico, de que as temáticas relacionadas às questões ambientais, sociais e de governança impactam em assuntos regulatórios e em riscos de imagem e reputação, mas o quanto efetivamente elas são inerentes à cultura organizacional? E quais elementos podem auxiliar a criação de uma visão mais estratégia sobre o tema?
Para isso, primeiramente precisamos entender o que é cultura e, mais especificamente, cultura organizacional. O termo cultura, segundo a definição encontrada nos dicionários, diz respeito às tradições, crenças e costumes de um grupo de pessoas. Ela passa por conhecimentos – acadêmicos e empíricos – experiências, modos de agir e valores que regem o relacionamento entre os indivíduos. A raiz da palavra remonta ao latim, e significa cultivar ou cuidar. Logo, deduz-se que a cultura é algo criado e adquirido de forma coletiva, cultivada ao longo do tempo e refletida nos valores e comportamentos que são transmitidos pelas pessoas. Nas empresas, isso não é muito diferente. A cultura, ou o modo de ser e agir organizacional, também é algo construído e aprimorado no tempo, compondo um conjunto de valores e crenças intrínsecos à organização e que são transmitidos de modo continuado às novas gerações de colaboradores. Portanto, ao se falar em cultura ESG, subentende-se que essa lógica de construção e aprendizados coletivos e continuados também é aplicável, o que demanda tempo, e daí a perspectiva de longo prazo que deve acompanhar a temática, e que tanto incomoda a visão imediatista de resultados predominante no mercado.
Os elementos essenciais
Embora a criação de uma cultura ESG exija tempo, existem alguns elementos essenciais que podem auxiliar nesse processo. Eles criam um ambiente propício para que as iniciativas ESG possam ser cultivadas e gerem frutos.
- Posicionamento claro da alta direção – esse é um tema top-down, e o desejo de criar uma cultura ESG deve partir das instâncias mais altas da organização. Conselhos, Presidências e Diretorias precisam agir de modo intencional e legítimo rumo à criação dessa cultura, desdobrando esse posicionamento em todos os níveis organizacionais.
- Conexão com o Negócio – é necessário identificar as conexões que as iniciativas ESG possuem com o core da organização, além da visão de riscos e regulatória. É importante refletir de que maneira essa cultura efetivamente contribui para o negócio e para o alcance dos objetivos estratégicos. Esse elemento preserva e fortalece a cultura ESG, levando-a de uma ocupação marginal para uma posição mais central nos processos decisórios.
- Visão estratégica de longo prazo – se a cultura é algo a ser construído e cultivado no tempo, é importante que as tendências, oportunidades e desafios capazes de agir a favor ou contra esse desenvolvimento sejam identificados e gerenciados, e que os objetivos a serem alcançados nessa perspectiva temporal estejam claros.
- Engajamento das lideranças – a presença constante da temática nas mensagens e nas decisões tomadas pelos gestores é fundamental para que o discurso esteja alinhado à prática. Os líderes têm a função primordial de transmitir o posicionamento da Alta Direção aos demais colaboradores, garantindo o alinhamento e o foco da organização, guiando as decisões e a conduta no dia a dia.
- Impacto positivo perene – a criação de uma cultura ESG passa pelo desejo legítimo da organização em gerar um impacto socioambiental positivo e perene que marque sua trajetória. É um legado que vai além da boa performance financeira, e que sustenta o crescimento da Cia.
Mi casa, tu casa
Como a cultura ESG passa pela forma como as empresas se relacionam com o ambiente e geram impactos e externalidades socioambientais, afetando e sendo afetadas por outros públicos ao seu redor, é importante que essa construção envolva a perspetiva dos stakeholders internos e externos. É improvável o sucesso das práticas ESG se as decisões forem tomadas exclusivamente a quatro paredes, desconsiderando as necessidades dos demais públicos. Isso gera uma miopia institucional que desvia a organização do caminho de criação de uma cultura ESG legítima e reconhecida na sociedade.
Mais do que uma sigla
Portanto, mais do que ter uma sigla atrelada ao modo de agir e pensar, a criação de uma cultura ESG é um convite à coletividade, a uma construção conjunta com os stakeholders, de modo continuado, e cultivado ao longo do tempo, de tal maneira que, aos poucos, a organização seja imbuída por esses conceitos, refletidos em suas práticas e decisões. E coerência e constância são essenciais nessa jornada.
Artigo escrito por Daniel Marques Périgo, que é gerente Sênior de Sustentabilidade do Grupo Fleury.
