O CPC 51, versão brasileira do IFRS 18, muda a cara do resultado das empresas e exige que o balanço deste ano já nasça no novo formato
Para muitos diretores financeiros, 2027 ainda parece distante. Mas o prazo real é outro: o exercício de 2026, que termina em menos de três meses. A nova norma, equivalente ao IFRS 18 e emitida no Brasil como NBC TG 51, substitui o CPC 26 e vale para exercícios iniciados a partir de 1º de janeiro de 2027. O detalhe que muda tudo é que as demonstrações de 2027 terão de ser comparadas com as de 2026, apresentadas sob as mesmas regras.
Na prática, os lançamentos feitos hoje precisam ter informação suficiente para serem reclassificados amanhã, de forma rastreável e auditável. Quem deixar para depois corre o risco de enfrentar retrabalho, custos extras e, no limite, ressalvas dos auditores.
Uma DRE com nova arquitetura
É a maior mudança na forma de apresentar resultados desde a convergência brasileira às normas IFRS. A Demonstração do Resultado passa a ser organizada em categorias, como operacional, investimento e financiamento, com subtotais obrigatórios. Muda também onde aparecem rendimentos, juros e dividendos. E indicadores que o mercado conhece bem, como o EBITDA ajustado, deixam de circular livremente e passam a seguir regras de divulgação.
Três perguntas ajudam a medir o desafio: o sistema consegue separar as despesas por natureza e por função ao mesmo tempo? Os lançamentos distinguem atividades operacionais, de investimento e de financiamento? E os registros de 2026 têm memórias de cálculo que resistam a uma auditoria retrospectiva?
Tudo começa no plano de contas
A base da adaptação está no plano de contas. É preciso revisar as contas de resultado, ajustar centros de custo para enxergar natureza e função da despesa, parametrizar o ERP para evitar planilhas paralelas e documentar uma matriz “de/para” que sirva de trilha para a auditoria. Uma falha aqui provoca efeito cascata: distorce os subtotais da DRE, desalinha o fluxo de caixa e compromete as conciliações das notas explicativas.
Efeitos que vão além do resultado
A norma também alcança as demais demonstrações:
- no fluxo de caixa, o método indireto ganha novo ponto de partida, juros e dividendos recebidos tendem a ir para investimento e os pagos, para financiamento;
- no balanço, ficam mais rígidos os critérios de agregação de contas e a compensação de saldos de naturezas distintas;
- nas notas explicativas, rubricas genéricas como “outras despesas”, sem detalhamento, entram na mira de auditores e reguladores.
O EBITDA ajustado sob os holofotes
As chamadas Medidas de Desempenho Definidas pela Administração (MPMs), como EBITDA ajustado e lucro operacional normalizado, passam a fazer parte das demonstrações auditadas. Se a empresa usa esses números em comunicações públicas, terá de explicá-los em nota própria, justificar por que são úteis, conciliá-los com o subtotal mais próximo da DRE, com os efeitos tributários, e manter o critério estável ao longo do tempo. Mudou a métrica? Os períodos comparativos precisam ser recalculados. Para áreas de RI acostumadas a apresentar números “ajustados” em teleconferências, é uma mudança de cultura.
Não é só tarefa da contabilidade
A transição pede envolvimento da alta gestão. Treinamento das equipes de contabilidade, controladoria e planejamento, conversas antecipadas com os auditores, atualização do manual de políticas contábeis e um comitê que reúna Contabilidade, TI, Jurídico e RI estão entre as recomendações. Conselho e Comitê de Auditoria devem acompanhar de perto os controles internos.
Por onde começar
O quadro abaixo resume as providências práticas recomendadas para 2026, incluindo a revisão dos covenants, ponto sensível para quem tem dívida:
| Frente de Atuação | Ação Estratégica | Objetivo Operacional |
| Diagnóstico Técnico | Realização de Gap Analysis detalhado | Confrontar processos e lançamentos vigentes contra cada parágrafo normativo da CPC 51. |
| Simulação e Testes | Desenvolvimento de Projeto-Piloto em 2026 | Elaborar demonstrações financeiras simuladas aplicando a nova modelagem de apresentação aos dados vigentes. |
| Alinhamento Regulatório | Consultas técnicas com auditoria externa | Consensuar previamente interpretações, critérios de rateio e classificação de contas críticas. |
| Revisão Contratual | Mapeamento de convênios financeiros e covenants | Recalcular impactos nas cláusulas restritivas atreladas a endividamento, alavancagem financeira e liquidez. |
| Governança de Dados | Aprovação da Política Corporativa de MPMs | Definir métricas aceitas e formalizar métodos perante os órgãos colegiados da administração. |
| Mercado de Capitais | Plano de comunicação técnica com stakeholders | Orientar investidores, analistas e instituições credoras sobre as alterações materiais de classificação. |
Quem cumprir o cronograma ganha mais do que conformidade: ganha credibilidade em um momento em que o mercado vai comparar, lado a lado, quem se preparou e quem correu atrás do prejuízo. O relógio já está correndo.
Artigo escrito por Vagner Lira, sócio da MLEGATE, líder da área de auditoria independente