C&A: Transparência como estratégia: a evolução da prestação de contas  

Para a C&A, transparência é um conceito amplo, que vai muito além da divulgação de informações. Segundo Laurence Gomes, vice-presidente de finanças e administração da companhia, ela reúne qualidade e confiabilidade dos dados, relevância do que é comunicado, acessibilidade para os diferentes públicos, integração entre informações financeiras e não financeiras, modernidade nos processos e nas ferramentas que sustentam tudo isso. Em síntese, trata-se da capacidade de oferecer ao mercado e à sociedade uma visão fiel, coerente e útil da companhia, com clareza e no tempo certo. 

Esse princípio sempre esteve presente na C&A e ganhou novos contornos e responsabilidades ao longo da evolução da companhia. Um dos principais marcos foi a abertura de capital na B3, em 2019, com a adesão ao Novo Mercado, segmento de mais alto nível de governança corporativa, o que elevou o padrão de prestação de contas da companhia ao mercado. 

A partir desse momento, a empresa fortaleceu estruturas importantes, como o Comitê de Auditoria, Riscos e Finanças e as áreas de Controles Internos e Compliance, com reporte ao Conselho de Administração. Segundo Gomes, esse processo trouxe ainda mais disciplina e robustez aos processos de geração e divulgação de informações. 

Outro marco foi a entrada no negócio financeiro, com o C&A Pay. A operação trouxe uma nova camada regulatória. A companhia passou a responder também ao Banco Central, o que elevou o padrão de controles e processos em diferentes áreas da organização, não apenas em Finanças. 

A empresa também avançou na divulgação voluntária de informações de sustentabilidade, com iniciativas como a publicação dos relatórios IFRS S1 e S2. “O Troféu Transparência reconhece um caminho que seguimos percorrendo, sem ponto de chegada. Cada etapa da C&A Brasil, do IPO ao reporte dos relatórios financeiros de sustentabilidade, veio acompanhada de um padrão mais elevado de prestação de contas”, afirma Gomes. 

Para ele, a qualidade da informação é, antes de tudo, resultado de cultura e de governança. Ela parte de valores como integridade e responsabilidade na prestação de contas e se apoia em uma estrutura com papéis bem definidos, em que cada informação passa por diferentes instâncias de revisão antes de chegar ao mercado. 

Nesse contexto, o modelo de três linhas de defesa formado pela área contábil, por controles internos e compliance e pela auditoria interna, com reporte independente ao comitê de auditoria, assegura que a informação seja produzida, monitorada e avaliada com independência. Os temas que envolvem maior julgamento também são discutidos de forma antecipada com o auditor independente e com o Comitê de Auditoria, o que, segundo o executivo, dá robustez às escolhas contábeis. 

A clareza é entendida como parte da qualidade da informação. “Uma informação correta precisa ser compreensível e relevante para quem a utiliza. Por isso, revisamos permanentemente nossas demonstrações e notas explicativas com foco no que de fato ajuda a compreender o negócio”, diz o executivo. 

Outro princípio destacado pelo executivo é a coerência. Relatório da Administração, release de resultados, teleconferências, Formulário de Referência e relatórios de sustentabilidade precisam contar a mesma história. De acordo com Gomes, em última instância, transparência significa oferecer uma visão única e consistente da companhia, independentemente do canal em que a informação é consultada. 

Integração e rastreabilidade devem marcar a próxima etapa da transparência corporativa 

Ao olhar para os próximos anos, o vice-presidente acredita que a transparência corporativa avançará cada vez mais em direção à qualidade, à integração e à rastreabilidade das informações. Na visão dele, investidores, sociedade e órgãos reguladores querem entender não apenas o número divulgado, mas também os critérios utilizados, a origem da informação e sua relação com o desempenho, os riscos e a estratégia da companhia. 

Esse movimento aproxima cada vez mais as informações financeiras e não financeiras. Temas como sustentabilidade, clima e outros fatores com potencial de impacto no negócio passam a exigir processos de mensuração, controle e revisão cada vez mais estruturados. 

Nas demonstrações financeiras, o executivo avalia que esse cenário se traduzirá em informações mais conectadas e capazes de oferecer uma visão mais completa do negócio. “O desafio será equilibrar profundidade com clareza e objetividade, de maneira integrada em todas as frentes.” 

Na visão do executivo, a transparência é a base das relações de confiança. Para os investidores, informações claras e consistentes reduzem a assimetria de informação e permitem compreender melhor o negócio, seus riscos e suas oportunidades. 

Para os consumidores, especialmente no varejo de moda, ela também fortalece a confiança na marca. A forma como a empresa se posiciona, presta contas e comunica suas decisões faz parte dessa relação. A transparência também é apontada como condição essencial para o relacionamento com instituições financeiras, reguladores e parceiros. Internamente, um reporte claro ajuda a alinhar a organização em torno dos mesmos números e das mesmas prioridades. 

Esse padrão se estende à cadeia de valor. Ao estabelecer processos e critérios claros de transparência, a companhia contribui para relações mais consistentes e duradouras com fornecedores e parceiros. 

Na visão de Gomes, tecnologia e ESG são vetores que ampliam o próprio conceito de transparência. O objetivo não é apenas produzir informação mais rápido, mas produzir informação melhor: mais confiável, mais integrada e mais útil para quem decide, dentro e fora da companhia. 

A agenda de transformação digital em Finanças tem uma direção estratégica clara: consolidar uma base única e íntegra de informações, capaz de sustentar ao mesmo tempo a gestão do negócio, o reporte regulatório e a comunicação com o mercado. “Quando todos os públicos olham para a mesma fonte, a consistência deixa de ser um esforço de conferência e passa a ser uma característica do modelo”, explica ele complementando: isso também redefine o papel de Finanças, que passa a dedicar menos energia à produção do dado e mais à análise e ao apoio às decisões da companhia. 

O ESG segue o mesmo caminho. Informações de sustentabilidade e clima passam a ter o mesmo grau de exigência das informações financeiras, com governança, controles e rastreabilidade, e passam a dialogar com elas. “A combinação dessas duas dimensões permite contar uma história mais completa sobre como a C&A gera valor e administra seus riscos ao longo do tempo”, relata Gomes. 

A inteligência artificial, acrescenta Gomes, abre uma nova fronteira, com potencial para ampliar a capacidade de análise, antecipar riscos e elevar o padrão de qualidade da informação. No entanto, a tecnologia é adotada com uma premissa considerada inegociável pela companhia. Ao finalizar, o executivo, pondera que a IA apoia a decisão, não a toma. “O julgamento e a responsabilidade continuam sendo das pessoas, e qualquer uso de IA na cadeia da informação financeira precisa ser explicável, auditável e rastreável. Inovar com responsabilidade também é uma forma de ser transparente.” 

Laurence Gomes, vice-presidente de
finanças e administração da C&A

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