Durante muitos anos, a transparência corporativa esteve associada principalmente à divulgação correta das informações financeiras. Hoje, porém, investidores, reguladores e demais stakeholders esperam algo mais: compreender como uma empresa gera resultados, administra riscos, toma decisões e projeta seu futuro.
Na avaliação de Sergio Medeiros, contador da Suzano, essa mudança acompanha a própria evolução dos mercados e das organizações. À medida que a companhia ampliou sua presença internacional e passou a operar em um ambiente regulatório mais sofisticado, o conceito de transparência também se transformou. “A transparência sempre foi um princípio importante, mas a forma de exercê-la evoluiu muito à medida que a Suzano cresceu, tornou-se mais complexa e ampliou sua presença no mercado de capitais global”.
Para Medeiros, a principal mudança está na expectativa dos usuários da informação. Se antes transparência podia ser entendida essencialmente como divulgar corretamente, hoje significa permitir que o mercado compreenda a companhia, seus resultados, seus riscos, seus julgamentos e a forma como seus negócios são administrados.
Essa evolução também pode ser observada na forma como as demonstrações financeiras são produzidas. Nos últimos anos, a Suzano incorporou a plataforma Workiva ao processo de elaboração e divulgação de suas informações financeiras. A ferramenta permite integrar dados, documentos e relatórios em um ambiente único, com controle de versões, gestão de acessos e trilhas de auditoria.
A solução também apoia os requerimentos de reporte para a Securities and Exchange Commission (SEC), incluindo a elaboração do Form 20-F e a entrega de informações em XBRL e iXBRL. Para Medeiros, a relevância dessa transformação vai além dos ganhos de produtividade. “Tecnologia aplicada ao reporting também é governança”.
Em seu entendimento, quanto menores as intervenções manuais e quanto mais próxima a informação divulgada estiver de sua fonte original, maior tende a ser a rastreabilidade dos dados e a confiabilidade de todo o processo de reporte.
A digitalização tem aberto espaço, ainda, para a incorporação de recursos de inteligência artificial às rotinas financeiras e contábeis. Ferramentas capazes de identificar inconsistências, automatizar verificações e ampliar a capacidade analítica das equipes já fazem parte das discussões sobre o futuro da função.
Apesar desse avanço, Medeiros ressalta que a tecnologia deve caminhar acompanhada de governança de dados, segurança da informação e julgamento profissional. “Vejo a IA como um meio para ampliar nossa eficiência e capacidade analítica, e não como um fim em si mesma.”
Demonstrações financeiras são construídas ao longo de todo o ano
Quando o tema é qualidade da informação, o executivo chama atenção para um aspecto frequentemente subestimado. “Uma Demonstração Financeira de qualidade não é produzida nos últimos dias do fechamento.”
A observação resume sua visão de que a confiabilidade dos números divulgados começa muito antes da publicação dos relatórios. Em uma companhia com operações florestais, industriais, comerciais e financeiras distribuídas por diferentes geografias, a qualidade da informação depende de uma ampla cadeia de responsabilidades.
Processos bem desenhados, controles internos efetivos, qualidade dos dados, sistemas integrados, análises das áreas de negócio, trabalho da Controladoria, auditoria externa e mecanismos de governança compõem a base desse processo. Além da estrutura operacional, Medeiros destaca três elementos fundamentais: julgamento técnico, tecnologia e clareza.
O primeiro está relacionado à necessidade de interpretar corretamente temas complexos como ativos biológicos, valor justo, testes de impairment, instrumentos financeiros, provisões e contingências. Mais do que aplicar normas contábeis, o desafio consiste em refletir adequadamente a substância econômica das transações. A clareza, por sua vez, ocupa papel central. “Uma Demonstração Financeira pode estar tecnicamente correta e, ainda assim, não comunicar bem.”
Por isso, segundo ele, existe um esforço contínuo para avaliar se as notas explicativas realmente ajudam o leitor a compreender operações, riscos e julgamentos relevantes para o negócio.
IFRS 18 aproxima demonstrações financeiras e comunicação com o mercado
Entre as transformações já no horizonte está a entrada em vigor da IFRS 18, norma que substituirá a IAS 1 para exercícios iniciados a partir de 1º de janeiro de 2027. A nova regulamentação introduzirá subtotais obrigatórios na demonstração do resultado, reforçará princípios de agregação e desagregação das informações e estabelecerá novos requerimentos para as chamadas Management-defined Performance Measures (MPMs).
Para Medeiros, a mudança representa mais do que uma revisão da forma de apresentação das demonstrações financeiras. Em sua análise, a IFRS 18 aproxima dois universos que historicamente coexistiram, mas nem sempre sob as mesmas regras: as demonstrações financeiras auditadas e a forma como a administração comunica a performance da companhia ao mercado.
O desafio, portanto, vai além dos ajustes contábeis. Exigirá consistência entre sistemas, processos, controles internos, indicadores de desempenho, apresentações de resultados, releases e demais comunicações financeiras. Como a aplicação será retrospectiva, com divulgação de informações comparativas, a preparação para a transição já ocupa espaço relevante na agenda das empresas.
Outro tema que deve mobilizar as áreas financeiras nos próximos anos é a implementação da reforma tributária brasileira. Na avaliação de Medeiros, os impactos vão muito além da parametrização fiscal. A mudança exigirá revisões em processos, sistemas, contratos, formação de preços, créditos tributários, fluxos de caixa e critérios de mensuração contábil.
O cenário reforça a necessidade de integração entre as áreas fiscal, financeira, tecnológica e de negócios. A expansão internacional da Suzano também amplia os desafios relacionados ao reporting corporativo. Medeiros cita como exemplo a operação envolvendo a Kimberly-Clark, que resultou na criação da Arbex, estrutura com presença em mais de 70 mercados, 22 unidades industriais distribuídas por 14 países e um portfólio global de produtos de tissue e higiene.
Uma combinação de negócios dessa escala envolve desafios relacionados à contabilização inicial da transação, alocação do preço de compra, identificação de ativos e passivos adquiridos, reconhecimento de intangíveis, mensuração de goodwill e harmonização de políticas contábeis entre diferentes geografias. “A internacionalização do negócio também exige internacionalizar nossa capacidade de produzir informação financeira confiável, comparável e tempestiva”, explica ele.
Já a agenda ESG representa outra frente importante de transformação. Para Medeiros, o movimento não significa incorporar automaticamente todas as métricas de sustentabilidade às demonstrações financeiras. O principal desafio está em garantir consistência entre premissas, riscos e julgamentos utilizados nos diferentes reportes corporativos.
Aspectos relacionados ao clima ou à natureza, quando materialmente relevantes, podem influenciar análises de impairment, projeções de fluxo de caixa, vidas úteis de ativos, provisões e testes de recuperabilidade. O avanço dessa agenda exigirá integração crescente entre áreas e uma governança capaz de conectar informações financeiras e não financeiras de forma coerente e rastreável. “O desafio futuro será construir um ecossistema de informações corporativas cada vez mais integrado, coerente e rastreável, preservando o rigor técnico e os critérios próprios de cada reporte”, aponta o executivo da Suzano.
Ao refletir sobre a relação entre empresas, reguladores, investidores e sociedade, Medeiros resume em uma palavra o principal resultado da transparência: confiança. Segundo ele, organizações da dimensão da Suzano precisam construir relações sustentáveis com públicos diversos, incluindo investidores, clientes, fornecedores, colaboradores, comunidades, governos e órgãos reguladores.
Nesse contexto, as demonstrações financeiras ocupam posição central como instrumento de prestação de contas. O executivo observa que essa visão está alinhada aos critérios do Troféu Transparência ANEFAC, reconhecimento que avalia aspectos como aderência às normas contábeis, consistência, clareza, legibilidade e qualidade das informações prestadas ao mercado. “Quanto menor a assimetria de informação, maior a capacidade de diálogo. E quanto maior a capacidade de diálogo, maior a confiança.”
Ao tratar da importância da confiança para negócios de longo prazo, Medeiros lembra uma característica que marca a atuação da Suzano: a empresa planta mais de um milhão de árvores por dia, que serão colhidas apenas depois de seis ou sete anos. Muitas das decisões tomadas atualmente, observa, produzirão efeitos durante décadas. Nesse cenário, transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a representar um ativo essencial para a sustentabilidade do negócio. “Transparência não é simplesmente divulgar mais. É permitir que quem está do outro lado compreenda melhor a Suzano.” E conclui: “Toda confiança duradoura começa pela transparência.”