A Conferência das Partes (COP30), realizada em Belém, em 2025, no coração da Amazônia, trouxe à tona discussões cruciais sobre a crise climática e a necessidade de uma transformação estrutural na economia. A Dra. Gisele Batista, membro do Comitê Técnico do Prêmio Boas Práticas ESG e representante da ANEFAC no ESG Group ICFOA, explica que a COP30 foi uma experiência de imersão profunda, tanto do ponto de vista técnico quanto territorial e humano. Confira abaixo uma entrevista exclusiva com ela sobre o evento.
Revista ANEFAC: Como foi a sua experiência na COP30 e quais foram os principais temas discutidos na conferência?
Gisele Batista: A COP30 foi, para mim, uma experiência de imersão profunda, tanto do ponto de vista técnico quanto territorial e humano. Estar em Belém, no coração da Amazônia, acompanhando uma conferência que reuniu dezenas de milhares de pessoas de quase todos os países, reforçou de forma contundente que a crise climática deixou de ser um tema setorial: trata-se de uma transformação estrutural da economia, da governança e do próprio modelo de desenvolvimento. Sob a ótica ESG, ficou evidente que estamos diante de uma mudança de paradigma que exige novas competências, novas lideranças e uma forma diferente de compreender risco, estratégia e impacto.
Escolhi viver a COP30 além das negociações. Participei do SDG Games, uma experiência que simula dilemas da Agenda 2030 e me fez refletir sobre como traduzir os ODS em decisões corporativas concretas. Realizei uma viagem de campo para conhecer um projeto-piloto de restauração florestal (hoje um dos mais complexos e bem-sucedidos do Pará) e visitei um viveiro florestal liderado por mulheres em um assentamento rural, vivência que reforçou o elo entre clima, gênero, território e geração de renda. Na Green Zone, participei de rodas de conversa, painéis e interações com startups, povos tradicionais, pesquisadores e empresas, buscando compreender tendências e soluções sob a perspectiva de quem está construindo a transição na prática. Também quis sentir a COP a partir da cidade: a rotina, a mobilidade, a culinária e a expectativa real da população de “receber o mundo”.
Do ponto de vista técnico, os eixos centrais da COP30 foram muito claros:
Transição energética e o impasse político sobre a eliminação dos combustíveis fósseis;
Finanças climáticas, com novos compromissos para ampliar recursos para mitigação e adaptação;
Florestas, biodiversidade e povos indígenas, com a Amazônia como eixo geopolítico e climático;
Adaptação, saúde e resiliência urbana;
Transição justa e justiça climática, conectando clima, trabalho, desigualdades e desenvolvimento.
Foi uma COP marcada pela implementação: mais planos, mais iniciativas, mais demanda por governança, métricas e rastreabilidade. E, sobretudo, uma COP que reforçou que a sustentabilidade empresarial, quando guiada por uma visão ESG estratégica, é peça central na construção de um futuro climático seguro, competitivo e socialmente justo.
Revista ANEFAC: Quais ações ou mensagens você trouxe da COP30 que podem impactar a atuação da ANEFAC na área de ESG?
Gisele Batista: Da COP30, trago a convicção de que ESG, risco climático e finanças deixaram de ser uma agenda paralela para se tornarem o eixo estruturante do novo modelo de gestão empresarial. As discussões em Belém mostraram que o futuro dos negócios será definido pela capacidade das organizações de integrar lucro, risco e impacto positivo em uma mesma lógica estratégica. E isso tem implicações diretas para o ecossistema de finanças e governança no qual a ANEFAC atua.
A primeira mensagem é a centralidade da governança climática. Conselhos, CFOs e executivos passam a ser protagonistas da transição, pois decisões de capex, alocação de capital, gestão de riscos, precificação, cadeia de valor e análise de cenários climáticos estão diretamente conectadas a emissões, transição de baixo carbono e eventos extremos. Não se trata mais de “consultar a área de sustentabilidade”, mas de incorporar clima e ESG como determinantes do desempenho econômico e da competitividade.
A segunda mensagem é a urgência de padronizar frameworks, linguagem e sistemas de reporte. Nesse ponto, vejo um papel estratégico para a PR2030, que traz uma abordagem sistêmica para compreender ESG como modelo de gestão, e não como obrigação acessória. A norma integra ODS, governança, estratégia, risco, performance e impacto, algo essencial para apoiar profissionais de finanças na transição para uma economia de baixo carbono. Conectá-la às normas internacionais, como IFRS S1/S2, SASB, TNFD e taxonomias verdes, permitirá que a ANEFAC ajude seus associados a navegarem pela interoperabilidade regulatória, especialmente num momento em que biodiversidade, clima e direitos humanos entram definitivamente nos reportes corporativos.
A terceira mensagem diz respeito às finanças de transição. A COP30 evidenciou que o acesso a capital (público, privado e/ou híbrido) será cada vez mais condicionado à demonstração de trajetórias claras de descarbonização, adaptação e impacto socioambiental. Isso abre espaço para novos instrumentos financeiros, linhas de crédito climático, blended finance, métricas de descarbonização e modelos de negócios regenerativos. A ANEFAC pode atuar como ponte entre o debate global observado em Belém e a prática diária de quem toma decisões financeiras e corporativas no Brasil.
Em síntese, o que levo da COP30 é a certeza de que os executivos estão no centro da governança climática. Cabe a eles garantirem qualidade de dados, integridade das informações e alinhamento entre lucro, estratégia, risco e impacto positivo. A ANEFAC, pela sua representatividade e credibilidade técnica, tem agora uma oportunidade singular de orientar organizações na transição para um modelo de negócios compatível com a nova economia, ou seja, mais resiliente, transparente e orientada a valor de longo prazo.
Revista ANEFAC: Como a COP30 no Brasil pode contribuir para fortalecer o diálogo entre sustentabilidade, empresas e sociedade?
Gisele Batista: A COP30, realizada na Amazônia, criou uma oportunidade extraordinária para que o Brasil amadureça o diálogo entre sustentabilidade, empresas e sociedade sob uma perspectiva mais estratégica e orientada à governança climática. O evento revelou, de forma muito clara, que ESG não é mais uma camada adicional às operações, mas a lógica que deve orientar como as organizações vão competir, se adaptar e gerar impacto nos próximos anos.
Ao trazer para o centro do debate temas como biodiversidade, direitos humanos, uso do solo, emissões de escopo 3, resiliência urbana e cadeias de valor responsáveis, a COP30 ampliou a compreensão de que a sustentabilidade corporativa depende da capacidade de ler o território, antecipar riscos e alinhar decisões a padrões globais de conformidade e transparência. Esse movimento reforça a importância de formar lideranças capazes de navegar essa complexidade: profissionais que entendam regulatórios, rastreabilidade, finanças climáticas e expectativa de mercado, e que consigam traduzir tudo isso em estratégia empresarial.
A conferência também evidenciou que o Brasil tem potencial para ser protagonista nessa nova economia, especialmente em áreas como bioeconomia amazônica, agricultura regenerativa, energias renováveis, soluções baseadas na natureza e inovação financeira voltada para clima. Mas, para transformar potencial em valor, será indispensável fortalecer a governança ESG dentro das empresas, garantindo coerência entre narrativa e prática.
Nesse sentido, a COP30 marca um ponto de virada: ela não apenas aproximou atores sociais, empresariais e governamentais, mas destacou a necessidade de líderes preparados para conduzir essa transição, capazes de integrar sustentabilidade, estratégia e gestão de risco em decisões de alto impacto. O diálogo entre empresas e sociedade sai da COP mais qualificado, mais técnico e mais exigente, criando condições para que o Brasil avance de forma estruturada rumo a um modelo de desenvolvimento que combina competitividade, responsabilidade e visão de longo prazo.
Revista ANEFAC: Quais aprendizados você trouxe do evento e que podem influenciar a implementação de práticas ambientais mais sustentáveis?
Gisele Batista: Um dos primeiros aprendizados da COP30 é que já não existe separação entre estratégia de negócios, finanças e clima. As empresas que se destacaram em Belém foram justamente aquelas que operam com metas baseadas na ciência, planos de transição bem estruturados, integração de risco climático à governança e modelos de negócio orientados para regeneração. A conferência deixou claro que liderança corporativa, hoje, significa compreender a transição climática como parte intrínseca da estratégia, e não como um capítulo isolado do planejamento.
O segundo aprendizado diz respeito à escala e velocidade. A era dos projetos piloto ficou para trás. A COP30 apresentou dezenas de fundos globais, plataformas de financiamento, iniciativas para energia, alimentos, cidades e florestas, mas a grande questão é: como isso chega à operação, à cadeia de valor e aos territórios? Foi esse ponto que mais me chamou a atenção. A transição climática precisa sair do nível das intenções e entrar na rotina das organizações, orientando processos, métricas, incentivos, cultura e tomada de decisão.
Também ficou evidente que clima, biodiversidade e direitos humanos são agendas inseparáveis. Implementar práticas ambientais mais sustentáveis hoje exige olhar para o uso do solo, água, florestas, emissões e circularidade, mas também para trabalho decente, diversidade, participação social e respeito aos povos e comunidades tradicionais. É esse o padrão que passará a ser exigido por investidores, reguladores e mercados internacionais, especialmente de empresas que buscam competir globalmente.
A verdade é que não faltam iniciativas, mas há uma carência de caminhos de implementação dentro das empresas. Em Belém, vimos um ecossistema robusto de soluções: finanças climáticas, bioeconomia amazônica, agricultura regenerativa, novos combustíveis, fundos para adaptação e instrumentos de mensuração de impacto. O desafio agora é transformar esse legado em prática concreta.
E é justamente aqui que metodologias estruturadas fazem diferença. Tenho auxiliado empresas através do Pipeline ESG Harpia como arquitetura de transformação, porque ele parte do princípio de que sustentabilidade não se implanta por projetos isolados, mas por meio de diagnóstico profundo, estratégia coerente, governança madura, engajamento das lideranças e mensuração com integridade. Após a COP30, essa visão se fortaleceu ainda mais: ESG precisa ser integrado de forma estratégica ao sistema de gestão, à cultura e à lógica de criação de valor compartilhado das empresas.
Em síntese, a principal lição da COP30 é que o futuro das práticas ambientais depende menos do volume de iniciativas disponíveis e mais da capacidade das organizações de internalizá-las com consistência, ética, transparência e visão de longo prazo.
Revista ANEFAC: Quais ações e mensagens ficaram da COP30 para o futuro?
Gisele Batista: Para mim, a COP30 deixa um conjunto muito claro de mensagens estratégicas, não apenas para governos, mas sobretudo para empresas, investidores e lideranças que precisam navegar a nova economia. A primeira delas é que entramos definitivamente na era da implementação. O foco agora é medir, reportar e verificar resultados, garantindo integridade de dados e consistência entre discurso e prática. O tempo das declarações ficou para trás e o que conta é a capacidade real de execução.
Também ficou evidente que não haverá agenda climática crível sem enfrentar o tema dos combustíveis fósseis. O impasse em Belém mostrou a força do lobby, mas também revelou uma pressão crescente de países, sociedade civil e investidores por um roteiro claro de eliminação, algo que logo será traduzido em normas, comércio internacional e decisões de financiamento.
Outro recado importante é que o financiamento da transição precisa chegar na ponta. Fundos e linhas que atendam micro e pequenas empresas, agricultura familiar, cidades e territórios vulneráveis serão decisivos para evitar que a transição aprofunde desigualdades. Sustentabilidade, no Brasil, passa pela capacidade de democratizar o acesso aos instrumentos financeiros e ampliar o potencial das cadeias produtivas.
A COP30 também reafirmou que a Amazônia e os povos indígenas são pilares estruturantes da legitimidade climática global. O mundo olha para o Brasil como guardião de florestas e referência em bioeconomia, e isso exige coerência entre visões, políticas e práticas empresariais.
Do ponto de vista corporativo, porém, a mensagem mais poderosa é que ESG é um bom plano de negócios. Organizações que desejam permanecer competitivas precisarão olhar para lucro, risco e impacto de forma integrada. E, nesse sentido, alguns aprendizados se destacam:
Quem se antecipa paga mais barato: empresas que avançarem na mensuração de emissões (especialmente Escopo 3), adaptação de cadeias de valor e transparência ESG terão melhor acesso a capital, menos exposição regulatória e mais competitividade em mercados como o europeu.
ESG é governança de riscos e oportunidades climáticas: CFOs, conselhos, compliance e sustentabilidade assumem um papel central na definição de estratégia, alocação de capital e resiliência de longo prazo.
Valor compartilhado é a nova régua de sucesso: modelos de negócios precisam gerar retorno financeiro enquanto ampliam benefícios socioambientais tangíveis, do baixo carbono à inclusão produtiva, passando por cadeias mais resilientes e regenerativas.
Sair do piloto automático e entrar na transformação estrutural: o futuro exige rever produtos, processos, portfólio, incentivos e cultura organizacional para alinhar negócios à Agenda 2030 e às necessidades reais dos territórios.
O grande legado da COP30 é o chamado para uma nova forma de fazer negócios, um modelo em que ESG deixa de ser periférico e passa a ser a bússola estratégica para navegar riscos, capturar oportunidades e entregar impacto positivo. O futuro pós-COP30 pertence às organizações que entenderem que sustentabilidade não é tendência, mas a nova infraestrutura do crescimento regenerativo.
