O agravamento das tensões geopolíticas, a instabilidade associada aos ciclos eleitorais e a aceleração contínua das transformações tecnológicas têm intensificado a pressão sobre as empresas, ampliando o nível de complexidade e incerteza que caracteriza o ambiente de negócios. Nesse contexto, a previsibilidade torna-se um ativo escasso, exigindo das organizações maior sofisticação na leitura de riscos e na alocação de recursos.
A transição tributária brasileira exemplifica essa dinâmica. Em qualquer economia, os tributos figuram entre as principais variáveis de conexão entre o ambiente macroeconômico e as decisões empresariais. Embora a reforma tributária tenha potencial para reduzir distorções no longo prazo, ela eleva de forma relevante a complexidade no curto e médio prazos. Para as empresas, isso implica administrar simultaneamente dois modelos de tributação indireta em suas operações que podem afetar substancialmente sua forma de lidar com clientes e fornecedores. Some-se a isso a também crescente complexidade e quantidade de obrigações relacionadas à tributação internacional (a exemplo das regras de Pillar Two).
Do ponto de vista conceitual, transições dessa magnitude deslocam o foco do planejamento. Mudanças substanciais na sistemática de arrecadação e no modelo de créditos reduzem o espaço para improviso e ampliam a demanda por processos internos mais robustos, além de maior uso de dados na gestão. Nesse cenário, a governança corporativa deixa de ser acessória e passa a desempenhar papel central.
Quanto mais complexo o ambiente externo, maior a necessidade de regras internas claras, papéis e responsabilidades bem definidas e métricas consistentes. A reforma tributária vai além do ajuste de alíquotas: impõe a revisão de contratos, a reavaliação de modelos logísticos, a reconfiguração de sistemas e a capacitação de equipes. Na ausência de governança, a complexidade externa tende a se converter diretamente em risco operacional e impactos financeiros.
Tomemos como analogia a reforma estrutural em um prédio comercial plenamente ocupado. A atividade no interior do edifício continua – pessoas trabalham, clientes circulam, prazos seguem em curso – enquanto instalações elétricas, hidráulicas e áreas comuns são gradualmente substituídas. Durante o processo, sistemas antigos e novos coexistem, exigindo planejamento rigoroso, comunicação constante e execução coordenada para evitar interrupções e retrabalho.
A transição tributária se assemelha a esse tipo de obra. O objetivo permanece inalterado, mas a infraestrutura que sustenta a operação passa por mudanças profundas. Empresas que mapeiam previamente os impactos, organizam fases de implementação e alinham com todas as áreas envolvidas reduzem o risco de falhas e custos inesperados. Em contraste, aquelas que tratam a reforma como um ajuste pontual tendem a enfrentar atrasos, necessidade de soluções improvisadas e, consequentemente, maior exposição a riscos operacionais e financeiros.
Esse diagnóstico exige ampliar o olhar para além das análises mais corriqueiras de um departamento tributário. Mudanças fiscais dessa grandeza demandam uma análise integrada dos modelos de negócio e operacionais das empresas, com interlocução contínua e constante com diversos departamentos (logística, compras, contratos, etc.). A resposta e ações adequadas nascerão, necessariamente, de um processo compreensivo de análise, permeado por uma governança robusta, tanto ao longo dos projetos de implementação e adequação, quanto no pós-transição.
Nos próximos anos, o sucesso empresarial estará cada vez mais associado à capacidade de integrar o planejamento tributário à estratégia geral do negócio, reposicionando a área fiscal de um centro de custo defensivo para um potencial diferencial competitivo. As organizações que compreenderem essa lógica estarão mais bem posicionadas para mitigar riscos e capturar oportunidades em um ambiente cada vez mais orientado à eficiência.
Esse movimento reforça, ainda, a importância do capital humano. A transição tributária impõe novas competências técnicas, maior capacidade analítica e habilidade para dialogar com áreas como tecnologia, suprimentos e planejamento estratégico. Investir em capacitação e em modelos multidisciplinares deixa de ser um custo incremental e passa a ser condição para a execução eficiente da estratégia.
Por fim, o ambiente brasileiro de 2026 combina desafios estruturais e oportunidades concretas de modernização. A reforma cria incentivos à eficiência, à transparência e à racionalização de processos, mas penaliza organizações que subestimam sua complexidade. Nesse cenário, o desempenho superior tende a resultar não de decisões isoladas, mas da consistência entre governança, estratégia e execução em um sistema tributário em transformação.
Artigo escrito por Daniel Cordeiro, Diretor de Contabilidade e Tributário da Embraer
