A sustentabilidade como vetor de criação de valor, a nova ordem econômica global, os aprendizados deixados pelos grandes escândalos corporativos e os impactos das transformações tributárias internacionais estiveram no centro dos debates do 7º Congresso Internacional ANEFAC, que reuniu especialistas do Brasil, México, Argentina e Espanha em um amplo intercâmbio sobre os desafios que moldam o ambiente de negócios contemporâneo.
Na abertura do evento, o presidente da ANEFAC, Roberto Fragoso, destacou o caráter internacional do encontro e a importância da troca de conhecimento entre executivos, acadêmicos e líderes empresariais. “Este congresso reúne líderes acadêmicos e profissionais de diversos países. São temas fundamentais da agenda global, como sustentabilidade, a nova ordem econômica mundial, os grandes escândalos corporativos e as tendências em governança.”
Sustentabilidade deixa de ser agenda paralela e passa a integrar a estratégia empresarial
O primeiro painel, moderado por Marta Pelúcio, conselheira da ANEFAC, teve como tema “Sustentabilidade como estratégia de geração de valor: tendências, métricas e casos comparativos entre países”. Ao abrir o debate, ela destacou que a sustentabilidade deixou de ser um tema periférico para ocupar posição central na formulação das estratégias corporativas. “O desafio atual das organizações não está apenas em compreender os impactos da agenda ESG, mas em transformá-los em valor econômico e vantagem competitiva de longo prazo.”
Participaram do debate Borja Fernández, representante da Asociación Española de Contabilidad y Administración de Empresas (AECA) e do Banco da Espanha, e Gisele Batista, diretora de ESG da ANEFAC, pesquisadora e representante da entidade na International CFO Alliance.
Ao analisar a relação entre sustentabilidade e rentabilidade, Borja Fernández afirmou que os impactos ambientais deixaram de ser projeções futuras para se tornarem fatores concretos de risco econômico.
Segundo ele, eventos climáticos extremos, escassez de recursos naturais e mudanças regulatórias já afetam diretamente custos operacionais, cadeias de suprimentos e decisões de investimento. “Estamos vendo muitos fenômenos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes e mais virulentos. Os temas ambientais afetam realmente a conta de perdas e ganhos das empresas e cada vez de forma mais clara.”
O especialista citou como exemplo a dependência de combustíveis fósseis e o aumento da exposição a oscilações de preços de matérias-primas derivadas do petróleo. Para ele, a transição energética deixou de ser apenas uma discussão ambiental e passou a representar uma estratégia de mitigação de riscos.
Fernández também destacou o avanço da regulação climática na Europa, onde setores produtivos já operam sob limites de emissão de carbono. “Há indústrias sujeitas a cotas de emissão e multas quando ultrapassam determinados limites. Isso já representa um custo direto para as empresas.”
Além dos riscos, ele chamou atenção para as oportunidades associadas à transição para novos modelos energéticos e para a crescente relevância da reputação corporativa. “Os consumidores já não analisam apenas o produto mais barato. Eles também querem saber como esse produto foi obtido e quais garantias ambientais, sociais e de governança ele oferece.”
Na visão de Gisele Batista, um dos maiores desafios atuais não está mais na criação de métricas, mas na capacidade de transformar informações em decisões estratégicas.
A especialista destacou que houve uma evolução significativa dos sistemas de mensuração ESG nas últimas décadas. “Aprendemos a medir impactos ambientais, sociais e de governança com um nível de precisão que não existia antes. Desenvolvemos indicadores, inventários de emissões, análises de materialidade e frameworks internacionais para divulgação de informações.”
Ainda assim, ela alertou que a existência de indicadores robustos não garante, por si só, a transformação das organizações. “Os indicadores reduzem as assimetrias de informação, fortalecem a gestão e tornam os riscos visíveis. Mas eles não decidem onde investir, quais riscos assumir ou quais oportunidades aproveitar. Essas continuam sendo decisões humanas.”
Para ilustrar seu argumento, Batista comparou organizações que operam sob os mesmos marcos regulatórios e utilizam indicadores semelhantes, mas alcançam resultados completamente distintos por conta da qualidade de suas decisões. “A vantagem competitiva não depende apenas de possuir mais informação. Depende da capacidade de interpretá-la e transformá-la em decisões consistentes.”
Segundo ela, a próxima etapa da agenda ESG passa justamente por essa evolução. “A grande transformação já não consiste em medir cada vez mais. Consiste em decidir cada vez melhor.”
De outro ponto de vista, Marta Pelúcio questionou o papel dos bancos centrais na agenda ESG. “Falamos o tempo todo de mudanças climáticas e dos seus riscos, mas a visão dos bancos é diferente. Eles trabalham com risco o tempo todo. Por isso, esse tema passou a ser tão relevante para as instituições financeiras”, afirmou. Borja Fernández explicou que os riscos climáticos passaram a ser incorporados aos modelos de supervisão financeira porque impactam diretamente a estabilidade econômica. “Os fatores ESG afetam risco de crédito, risco operacional, risco de liquidez e risco reputacional.”
Segundo ele, o Banco da Espanha e o Eurosistema já utilizam modelos de estresse climático que incorporam projeções de temperatura, escassez hídrica, eventos climáticos extremos e riscos de transição energética. “Hoje estamos analisando com mapas de geolocalização quais seriam os impactos de uma seca numa determinada região, ou de restrições de acesso à água, sobre as carteiras das instituições financeiras.”
Para o especialista, os bancos também desempenham um papel fundamental no financiamento da transição para uma economia de baixo carbono. “Os bancos precisam canalizar recursos para financiar a transformação energética. Esse é um papel essencial do sistema financeiro.”
Ao encerrar o painel, Gisele Batista destacou que a verdadeira diferença entre organizações está na forma como interpretam as transformações em curso. “Algumas empresas enxergam esse cenário apenas como uma sucessão de riscos a serem administrados. Outras compreendem que estamos diante de uma transformação estrutural da própria economia.”
Segundo ela, são essas organizações que conseguem utilizar sustentabilidade, governança e inovação como motores de crescimento. “A sustentabilidade deixou de ser apenas uma agenda de compliance. Hoje ela influencia inovação, gestão de riscos, captação de recursos, acesso a financiamento e posicionamento estratégico.”
Para Marta Pelúcio, a sustentabilidade já não pode ser analisada apenas sob a perspectiva ambiental ou regulatória. Na sua avaliação, a agenda ESG está cada vez mais relacionada à competitividade, ao acesso a capital e à capacidade das organizações de tomar decisões melhores em um ambiente de crescente complexidade econômica, social e climática.
Nova ordem econômica global desafia Brasil, México e Argentina
O segundo painel foi moderado por David Kallás, membro do Conselho de Administração da ANEFAC e da International CFO Alliance. Participaram do debate: Ángel García Lascuráin, representante do IMEF (Instituto Mexicano de Ejecutivos de Finanzas) da ICFOA (International CFO Alliance), Diego Cazorla, ex-presidente do Instituto Argentino de Ejecutivos de Finanzas (IAEF), e Roberto Vertamatti, membro do Conselho de Administração da ANEFAC.
Ao abrir o painel sobre economia, geopolítica e comércio internacional, David Kallás destacou que as empresas vivem um momento de profundas transformações globais, marcado por mudanças nas cadeias produtivas, novas tensões geopolíticas e redefinições nas relações comerciais entre países. “Estamos diante de um tema absolutamente relevante para todos nós. As decisões econômicas e geopolíticas têm impacto direto sobre as empresas multinacionais e sobre a forma como os negócios são conduzidos”, afirmou.
Ao comentar a crescente influência das questões ESG sobre o sistema financeiro, Kallás observou que as organizações precisam compreender que o acesso a capital está cada vez mais ligado à capacidade de demonstrar resiliência, transparência e gestão de riscos. Para ele, sustentabilidade e competitividade deixaram de ser agendas separadas e passaram a fazer parte da mesma discussão estratégica.
Ángel García Lascuráin apresentou um panorama detalhado da economia mexicana. Segundo ele, o país combina inflação controlada, sistema financeiro sólido e crescimento das exportações com um cenário de estagnação dos investimentos privados. “A economia mexicana está em um momento de contrastes.”
O executivo explicou que o México mantém inflação próxima a 4%, desemprego reduzido e forte atividade industrial. Entretanto, enfrenta um crescimento econômico inferior ao potencial. “A economia mexicana cresceu apenas 0,8% no ano passado e as projeções apontam crescimento próximo de 1%.”
Entre as causas estão insegurança jurídica, mudanças regulatórias e as incertezas relacionadas ao acordo comercial com Estados Unidos e Canadá. Lascuráin lembrou ainda que o México já se tornou o principal fornecedor dos Estados Unidos. “O México substituiu a China como principal fornecedor da economia americana.”
Ao mesmo tempo, destacou a necessidade de ampliar o valor agregado da produção mexicana. “Grande parte das exportações ainda são produtos montados no México com componentes importados. O desafio é aumentar a integração produtiva local.”
Já Diego Cazorla apresentou uma análise profunda da transformação econômica argentina. Segundo ele, o país passou décadas convivendo com inflação elevada, déficits fiscais recorrentes e sucessivas crises financeiras. “O comum denominador dos últimos anos foi a instabilidade absoluta.”
Ao descrever o cenário herdado pelo governo Javier Milei, o executivo citou inflação anualizada próxima de 300%, déficit fiscal de 5% do PIB, escassez de reservas internacionais e pobreza ao redor de 50% da população. Cazorla destacou que o principal eixo das reformas foi um forte ajuste fiscal. “Houve um ajuste de aproximadamente 6,5 pontos do PIB, que permitiu transformar um déficit em superávit fiscal.”
Apesar da melhora dos indicadores macroeconômicos, reconheceu que os benefícios ainda precisam alcançar empresas e consumidores. “O grande desafio agora é fazer com que essa estabilização macroeconômica chegue ao bolso da população e à realidade das empresas.”
O executivo também destacou o potencial dos setores de agronegócio, energia e mineração para impulsionar o crescimento do país.
Representando a ANEFAC, Roberto Vertamatti traçou uma análise da economia brasileira. Segundo ele, o país possui vantagens estruturais importantes, mas enfrenta obstáculos que limitam seu crescimento. “O Brasil não precisa descobrir novas riquezas. Essas riquezas já existem.”
Para Vertamatti, três fatores explicam boa parte das dificuldades brasileiras: desequilíbrio fiscal; elevada complexidade tributária; e taxas de juros elevadas. “Não pode haver crescimento sustentável sem responsabilidade fiscal.”
O executivo também criticou o elevado custo de conformidade tributária. “As empresas brasileiras destinam uma quantidade enorme de tempo e recursos para cumprir obrigações fiscais.” Ao encerrar sua participação, defendeu maior produtividade, investimentos em educação, inovação e segurança jurídica.
Governança corporativa: as lições dos grandes escândalos
O terceiro painel foi moderado por Vivian Krebs, diretora internacional da ANEFAC. As debatedoras foram: Sylvia Perales, representante do IMEF, Mitzi Gómez Morales, da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) e da Comissão Nacional de Certificação do IMEF.
Ao abrir o painel “Governança e Escândalos Corporativos: lições dos grandes escândalos contábeis e de auditoria”, Krebs destacou que o tema continua sendo uma das principais preocupações das organizações ao redor do mundo. Segundo ela, compreender os erros que levaram aos grandes escândalos corporativos é essencial para fortalecer controles, aprimorar a governança e aumentar a capacidade das empresas de prevenir crises futuras.
Como ponto de partida para a discussão, Krebs apresentou alguns episódios recentes ocorridos no Brasil, incluindo os casos da Americanas, do Banco Master e da REAG Investimentos. A executiva observou que, embora os contextos sejam diferentes, esses episódios reforçam a necessidade de reflexão sobre transparência, qualidade da informação, sistemas de controle e cultura organizacional.
As especialistas analisaram casos como Enron, Wirecard, Petrobras e recentes escândalos corporativos brasileiros. Sylvia Perales afirmou que os grandes escândalos costumam nascer de pequenas distorções. “Muito poucas vezes alguém acorda e decide cometer uma fraude.” Segundo ela, o problema surge quando organizações normalizam pequenas exceções. “As pequenas mentiras se acumulam.”
Mitzi Gómez complementou afirmando que o silêncio organizacional costuma ser um dos maiores riscos. “Se você chega a um conselho de administração e tudo está bem, provavelmente alguma coisa está errada.”
Ao discutir se governança nasce dos controles ou da cultura organizacional, as duas especialistas defenderam que os controles são essenciais, mas insuficientes. “Você pode ter os melhores manuais do mundo. Se a cultura de dizer a verdade não existir, eles não serão respeitados”, afirmou Mitzi. Perales reforçou: “As empresas que mais avançam são aquelas que permitem ser questionadas.” Para ambas, transparência, diversidade de opiniões e liberdade para levantar problemas são elementos centrais de uma governança sólida.
Ao encaminhar o encerramento do debate, Krebs ressaltou que os grandes escândalos corporativos costumam deixar lições semelhantes. “Fazer o correto, dizer a verdade, formular as perguntas certas e tomar decisões mais conscientes são elementos fundamentais para fortalecer a confiança nas organizações.”
Segundo ela, esses princípios permanecem válidos independentemente do setor, do porte da empresa ou do país em que a organização atua.
Nova tributação global exige transformação das multinacionais
O último painel foi moderado por Luana Albino, diretora internacional de contabilidade da ANEFAC. Participaram: Andrea Renda, diretora financeira para América Latina na Embecta, e Camila Bacellar, advogada especializada em tributação internacional e sócia no Cescon Barrieu.
Ao abrir o painel “Tributação Global, BEPS 2.0, Tributação Mínima Global e os Desafios Fiscais para Grupos Multinacionais”, Luana Albino destacou que o sistema tributário internacional atravessa uma das maiores transformações de sua história.
Segundo ela, as iniciativas lideradas pela OCDE estão redefinindo a forma como empresas multinacionais estruturam suas operações, políticas fiscais e modelos de expansão internacional. “Durante a última década, o sistema tributário internacional passou por uma das maiores transformações de sua história. A agenda impulsionada pela OCDE, o projeto BEPS, o Pilar 2 e as novas demandas por transparência estão redefinindo a forma como as empresas multinacionais organizam suas operações globalmente.”
As especialistas discutiram preços de transferência, Pilar 2 da OCDE e reforma tributária brasileira. Andrea Renda observou que as mudanças recentes colocam o país em linha com as práticas internacionais. “Durante toda a minha carreira eu precisava explicar que no Brasil era diferente. Agora isso está mudando.”
Camila Bacellar destacou que a adoção das novas regras de preços de transferência representa uma mudança histórica. “Ganhamos liberdade comercial, mas em troca de uma carga de documentação muito maior.”
Segundo ela, a busca por comparáveis internacionais, análises funcionais mais robustas e exigências documentais ampliaram significativamente a complexidade operacional das empresas.
Ao contextualizar a discussão sobre preços de transferência, Albino chamou atenção para o fato de que o Brasil foi um dos últimos grandes mercados a adotar o modelo alinhado à OCDE. Para a moderadora, a convergência brasileira aos padrões internacionais representa um marco relevante para a inserção do país na economia global. “O Brasil está vivendo uma profunda transformação, com a adoção das novas regras de preços de transferência, mudanças na tributação internacional e a implementação da reforma do consumo.”
As panelistas concordaram que a reforma tributária brasileira representa uma das maiores transformações já realizadas no país. “Estamos desmontando todo o sistema atual de tributação do consumo para adotar um modelo de IVA Dual”, explicou Bacellar.
Renda alertou que as empresas precisam agir imediatamente. “Quem ainda não começou sua preparação já está atrasado.” Segundo elas, sistemas, processos, contratos, tecnologia e estruturas operacionais precisarão ser adaptados ao longo dos próximos anos. Ao final do painel, ela afirmou que as mudanças regulatórias exigirão um novo perfil profissional. “Vamos precisar de profissionais de finanças diferentes. Menos focados em interpretar exceções e mais voltados para oportunidades, eficiência e criação de valor.”
Bacellar destacou que a gestão de caixa e a capacidade analítica ganharão ainda mais relevância. “A atenção à geração e ao uso de caixa será cada vez mais importante.”
Ao concluir o debate, Albino destacou que as mudanças promovidas pela OCDE, pela tributação mínima global e pelas reformas tributárias nacionais estão criando um ambiente empresarial cada vez mais integrado internacionalmente. “Estamos caminhando para um cenário de maior convergência global, mas também de maior complexidade operacional. Por isso, compreender essas transformações será fundamental para a competitividade das empresas nos próximos anos.”
A diretora ressaltou ainda que temas como governança tributária, gestão de caixa, tecnologia e integração de sistemas passarão a ocupar posição cada vez mais estratégica dentro das organizações.
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