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A reforma tributária e a nova agenda financeira das PMEs 

Muito se tem discutido sobre as novas regras da reforma tributária. A maioria dos debates concentra-se nas alíquotas, nos novos tributos, no período de transição e nos impactos fiscais. Tudo isso é importante. Mas, na minha visão, a principal transformação será outra. 

A reforma tributária obrigará milhares de pequenas e médias empresas a reverem sua forma de gestão. 

Nos últimos anos, muitas empresas cresceram convivendo com processos pouco estruturados. Era comum encontrar negócios rentáveis sem orçamento anual, sem fluxo de caixa projetado, sem indicadores de desempenho e, em muitos casos, sem uma demonstração de resultados utilizada efetivamente para a tomada de decisão. O empresário conhecia profundamente seu mercado, mas administrava muito pela experiência e pela intuição. 

Esse modelo sempre teve limitações. Agora, elas tendem a ficar mais evidentes. 

A lógica da não cumulatividade ampla muda a forma como as empresas enxergam suas operações. O cadastro de produtos, a classificação fiscal, o momento do reconhecimento das operações, a qualidade das informações e a integração entre os sistemas passam a ter impacto direto na geração de valor. 

Isso significa que erros que antes produziam apenas retrabalho poderão afetar margem, competitividade e fluxo de caixa. 

Outro aspecto pouco discutido é que a reforma tende a aproximar definitivamente as áreas financeira, fiscal, comercial e de suprimentos. A decisão sobre um fornecedor, por exemplo, deixará de considerar apenas preço, prazo e qualidade. A estrutura tributária da operação e seus reflexos na recuperação de créditos também passarão a fazer parte da análise econômica. 

O mesmo ocorre com a formação de preços. 

Historicamente, muitas PMEs construíram seus preços adicionando uma margem sobre os custos. Essa lógica, embora simples, dificilmente será suficiente em um ambiente tributário mais dinâmico, no qual alterações na cadeia de fornecimento poderão modificar a rentabilidade de determinados produtos ou serviços. 

Existe ainda um desafio silencioso. 

Grande parte das PMEs brasileiras continua tomando decisões olhando prioritariamente o passado. Decisões estratégicas exigem informações sobre geração de caixa futura, necessidade de capital de giro, margem de contribuição, retorno sobre investimentos e produtividade operacional. 

Sem essas informações, o risco é que o empresário descubra o problema apenas quando ele já tiver chegado ao banco. 

Nesse cenário, a tecnologia deixa de ser um diferencial para se tornar infraestrutura básica. Empresas que ainda dependem de planilhas paralelas, cadastros inconsistentes e processos excessivamente manuais encontrarão mais dificuldades para acompanhar a velocidade das mudanças. 

Naturalmente, tudo isso amplia também o papel da contabilidade. 

O contador deixa de ser apenas o responsável pela conformidade fiscal para assumir uma posição cada vez mais estratégica, apoiando decisões relacionadas à rentabilidade, investimentos, estrutura de capital, crescimento e gestão de riscos. Essa mudança exige uma nova postura também das empresas, que precisam enxergar suas informações contábeis como instrumento de gestão, e não apenas como obrigação legal. 

A reforma tributária certamente exigirá adaptações. Mas talvez seu maior legado seja outro: acelerar a profissionalização da gestão das pequenas e médias empresas brasileiras. 

Quem enxergar essa transformação apenas pelo aspecto tributário provavelmente perderá a oportunidade de tornar seu negócio mais eficiente, competitivo e preparado para crescer nos próximos anos. 

Artigo escrito por Demetrius Guimarães, diretor regional de PMEs da ANEFAC/MG e diretor na MGA Empresarial 

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