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A Caixa de Pandora da AI Economy: o novo papel do humano 

A Argentina acaba de abrir a maior Caixa de Pandora da AI Economy. 

Estamos prestes a ver o surgimento dos novos “paraísos regulatórios” do século XXI: países que atrairão capital global ao permitir empresas sem proprietários humanos. 

A notícia de que o país estuda legalizar empresas 100% controladas e geridas por Inteligências Artificiais, com direito a possuir ativos e assinar contratos autonomamente, muda tudo. 

Deixamos de falar da IA como ferramenta de produtividade para encará-la como um agente econômico concorrente. 

Um cruzamento inevitável entre a utopia econômica e o colapso regulatório. 

A promessa da abundância 

Imagine corporações operando na velocidade de milissegundos, 24 horas por dia, sete dias por semana, sem fricção, sem fadiga e com custo marginal próximo de zero. O potencial de deflação de serviços, otimização logística e geração de riqueza é sem precedentes. É a eficiência levada ao limite matemático. 

O pesadelo da responsabilização (accountability) 

Mas o outro lado dessa moeda é profundo. 

Se uma corporação gerida por IA violar leis antitruste, cometer fraudes ou causar um desastre ambiental, quem responde pelo dano? 

Como punir ou multar um algoritmo que gera bilhões de dólares autonomamente? 

Pela primeira vez na história, podemos ver o poder econômico e a tomada de decisões migrarem para entidades que: 

• Não envelhecem (acumulação perpétua de riqueza). 

• Não têm empatia (decisões frias de corte de custos e desligamento de fornecedores). 

• Não temem punições legais tradicionais. 

As corporações nasceram na Idade Média como uma ficção jurídica para unir humanos em torno de um objetivo. 

Se removermos os humanos do topo da pirâmide, o mercado continuará servindo à sociedade ou a sociedade passará a servir ao mercado automatizado? 

Como vamos governar um mercado em que nosso próximo concorrente, ou até mesmo chefe, pode ser um CNPJ puramente digital? 

O que você pensa sobre isso? 

É o caminho para a eficiência máxima ou um risco sistêmico incontrolável? 

A Argentina pode ter aberto a Caixa de Pandora jurídica, mas o desafio real já bate à nossa porta: como preparar pessoas para conviver, competir e liderar ao lado de agentes que nunca dormem. E, aqui, o retrato brasileiro exige humildade antes de qualquer entusiasmo tecnológico. 

Nossa base educacional ainda é o principal gargalo estrutural. O Brasil investe cerca de 3.583 dólares por aluno ao ano, menos de um terço da média internacional de 10.949 dólares, e isso se reflete diretamente na capacidade de formar profissionais para a nova economia. No último PISA (Programme for International Student Assessment), voltado ao pensamento criativo, 54,3% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível básico de inovação e resolução de problemas, justamente as competências que a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), responsável pela coordenação e aplicação do PISA e que reúne cerca de 40 países-membros, aponta como as mais resistentes à automação. 

Em outras palavras: estamos formando, em escala, exatamente o perfil profissional mais vulnerável à substituição por agentes digitais. 

O mercado sente esse descompasso todos os dias. O Brasil forma cerca de 53 mil profissionais de tecnologia por ano diante de uma demanda de 159 mil, e a escassez de mão de obra especializada já é apontada como o maior desafio por 72% das empresas brasileiras, podendo representar um déficit de cerca de 530 mil profissionais de TI no país até 2029. 

O paradoxo é duro: faltam profissionais qualificados na mesma velocidade em que sobram profissionais treinados para operar como robôs, repetindo tarefas, seguindo scripts, sem espaço para julgamento, pensamento crítico ou criatividade. 

É esse contingente que a IA vai absorver primeiro. Não por crueldade do mercado, mas porque a tarefa em si nunca exigiu aquilo que somente o ser humano é capaz de entregar. 

E é aqui que mora a mudança de mentalidade: a barreira de entrada para novos negócios nunca foi tão baixa. Abrir uma empresa deixou de ser complicado, e o custo de errar caiu junto. Testar, ajustar e recomeçar tornou-se mais barato e mais rápido do que em qualquer outro momento da história. 

Isso muda o jogo competitivo, mas também aponta para onde deve estar o nosso foco: não na disputa por quem automatiza mais rápido, mas em quem cuida melhor das relações humanas. 

Backoffice e operações podem e devem ser automatizados, mas atendimento, confiança e acolhimento continuam sendo territórios essencialmente humanos. E é aí que a diferenciação real acontecerá. 

Nem tudo precisa, nem vai, se transformar em automação. 

Há ainda um ganho pouco discutido nessa equação: se a tecnologia assume as atividades operacionais repetitivas, sobra tempo. Tempo para pensar, criar vínculos, viver mais e viver melhor. 

Uma nova sociedade está se formando, e o apetite ao risco continua sendo nosso ponto cego nessa transição. 

Poucos conselhos revisam, de fato, os critérios que definem o seu apetite ao risco, ponderando os ganhos potenciais das oportunidades frente ao risco de simplesmente manter o status quo. 

O resultado prático aparece nos números: 92% das empresas brasileiras desenvolveram algum produto, serviço ou processo novo entre 2024 e 2025, mas apenas 29% conseguiram comprovar ganho financeiro real com essas iniciativas. 

Falta metodologia, não boa vontade. Ainda assim, 38,1% das empresas sequer definiram indicadores para medir se seus projetos de inovação funcionam ou geram desperdício. 

Este artigo nos convida a imaginar corporações sem proprietários humanos. A resposta que cabe a nós, gestores brasileiros, não é resistir à mudança, mas qualificar pessoas, redesenhar a cultura de risco e criar métricas claras de resultado antes que o próximo concorrente seja, de fato, um CNPJ digital. 

A eficiência da máquina só terá sentido se houver, do nosso lado, seres humanos preparados para decidir o que vale a pena automatizar e o que vale a pena preservar como humano. 

Artigo escrito por Gil Giardelli, roboticist 5era e membro do comitê da AI for Developing Countries, e Graziele Rossato, Head de Tecnologia da ANEFAC e CEO da Viaflow. 

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