Produzir mais, conservar melhor e direcionar capital: o desafio é transformar uma aparente contradição em uma agenda de governança territorial.
Durante décadas, o debate sobre o futuro do agronegócio foi apresentado a partir de uma escolha: ampliar a produção agrícola ou preservar as florestas. Essa visão tornou-se insuficiente para explicar a complexidade do desafio atual. Produção de alimentos, conservação ambiental e desenvolvimento econômico não são dimensões isoladas. Elas se influenciam mutuamente e precisam ser tratadas como partes de uma mesma agenda estratégica.
O Brasil ocupa posição singular nessa discussão. Ao mesmo tempo em que possui uma das maiores agriculturas do mundo e participa do abastecimento internacional, concentra ativos ambientais de importância global. A questão, portanto, não é simplesmente produzir mais ou conservar mais, mas criar condições para que a produção cresça com maior eficiência, menor pressão sobre novas áreas e maior capacidade de gerar renda e desenvolvimento.
Isso exige uma mudança de perspectiva. Expansão agrícola não precisa ser sinônimo de expansão territorial. Há espaço para aumentar a produtividade por meio da recuperação de áreas degradadas, da melhoria das pastagens, da integração entre lavoura, pecuária e floresta, da agricultura de precisão, do uso eficiente de água e insumos, da genética, da tecnologia e da gestão. A Embrapa destaca que a recuperação de pastagens degradadas pode contribuir para a produtividade, a renda, a segurança alimentar e a adaptação climática. O desafio está menos na ausência de soluções e mais na escala de sua adoção.
É nesse ponto que a governança territorial ganha relevância. É necessário integrar informações fundiárias e ambientais, regularização, assistência técnica, planejamento produtivo, infraestrutura, tecnologia, monitoramento e financiamento. Produtores, empresas, instituições financeiras, governos, universidades e mercados precisam atuar em uma arquitetura de incentivos que torne conservar economicamente racional e produzir eficientemente ambientalmente responsável.
O capital financeiro pode desempenhar papel decisivo. Crédito rural, seguro, mercado de capitais, fundos, instrumentos de financiamento sustentável e critérios de risco socioambiental podem deixar de ser vistos apenas como mecanismos de controle e funcionar também como instrumentos de indução. Quanto maior a qualidade da informação, da governança e da rastreabilidade, maior a capacidade de o mercado diferenciar projetos, produtores e cadeias segundo seus riscos e oportunidades.
Essa discussão ganha dimensão adicional com o Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR). A regulamentação estabelece requisitos de diligência para determinadas commodities e produtos associados, entre os quais soja e bovinos, buscando assegurar que produtos colocados no mercado europeu ou exportados a partir dele não estejam associados a desmatamento ou degradação florestal. A aplicação está prevista para 30 de dezembro de 2026 para grandes e médios operadores, com regras específicas para micro e pequenas empresas. O EUDR reforça uma tendência: origem, rastreabilidade, dados e conformidade passam a integrar a competitividade das cadeias agrícolas.
Para o Brasil, esse movimento pode ser visto também como oportunidade de aprimoramento. Sistemas capazes de demonstrar a origem da produção, o cumprimento da legislação e a qualidade da gestão podem reduzir assimetrias de informação e facilitar o acesso a mercados e ao capital. O risco está em transformar sustentabilidade em mera burocracia documental, sem conexão com a realidade econômica do produtor. A resposta é combinar exigência, simplificação, tecnologia e incentivos.
Segurança alimentar precisa, por sua vez, ser compreendida em sentido amplo. Não depende apenas do volume produzido, mas também da estabilidade da oferta, da produtividade, da renda e da capacidade de investimento dos produtores, da resiliência climática, da infraestrutura, da redução de perdas e do acesso da população aos alimentos. Uma agricultura que esgota seus recursos naturais perde capacidade produtiva no longo prazo; uma política ambiental que desconsidera a viabilidade econômica da produção pode produzir incentivos inadequados.
A questão central, portanto, precisa ser reformulada. Em vez de perguntar se devemos escolher entre produção agrícola e conservação florestal, deveríamos perguntar quais condições econômicas, tecnológicas e institucionais permitem produzir mais, conservar melhor e distribuir os benefícios do desenvolvimento de maneira sustentável. Conciliar essas agendas não significa eliminar a tensão, mas administrá-la com inteligência econômica, ciência, transparência e visão de longo prazo. Para o Brasil, competitividade agrícola e conservação ambiental podem, quando corretamente governadas, fazer parte da mesma estratégia de desenvolvimento.
Fontes de referência
Comissão Europeia. Regulation on Deforestation-free Products (EUDR) e atualizações de implementação, 2026. Embrapa. Recuperação de pastagens degradadas: produtividade, renda, segurança alimentar e adaptação climática.
Artigo escrito por Roberto Rodrigues, que é CEO e fundador da R. R. Life Group (R R Life Capital & Agribusiness, R R Life Agro Governance e R R Life Opportunities), head adjunto de agronegócio na ANEFAC, membro da Câmara Temática de Gestão de Riscos no Agronegócio do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), coordenador e professor no Programa de Formação de Executivos para o Agronegócio – Universidade P. Mackenzie – SP / Mackenzie Soluções, além de professor convidado na FGV e professor e tutor na FIA-SP. E ainda produtor rural.