A crescente pressão de investidores, reguladores e da sociedade para que empresas avancem em suas agendas ESG tem colocado um tema no centro das discussões: a qualidade dos dados. Mais do que medir resultados, as organizações precisam transformar informações em decisões concretas e criar mecanismos capazes de sustentar a credibilidade de seus compromissos ambientais, sociais e de governança.
Para Mauricio Rodrigues, CEO da ESGreen, o ESG só produz impacto quando deixa de existir apenas nos relatórios e passa a influenciar diretamente a rotina corporativa. “ESG só gera resultado quando sai do relatório e entra na decisão do dia a dia”.
Na prática, isso acontece quando dados ESG são combinados com informações operacionais e financeiras e passam a ser acompanhados continuamente. Rodrigues cita como exemplo uma instituição financeira que integrou previsões climáticas de alta resolução a dados de safra e histórico de crédito. A iniciativa permitiu criar um índice de risco climático utilizado hoje no processo de concessão de crédito. “Ou seja, ESG deixa de ser uma intenção declarada e passa a ser um fator que muda decisões de negócio todos os dias”, destaca ele.
Se os dados são a base dessa transformação, garantir sua qualidade ainda é um desafio para muitas empresas. Um dos principais obstáculos, segundo o executivo, é a fragmentação das informações. “Para ter uma visão confiável de risco ESG, hoje é preciso integrar dezenas de fontes de dados diferentes. Isso já mostra o tamanho do problema.”
Outro ponto crítico está nos chamados erros estruturais. Mais do que a ausência de dados, eles podem criar uma falsa sensação de confiabilidade e comprometer análises importantes. “Não é só dado faltando. Vimos um caso em que um erro de integração entre bases inflou artificialmente os números de um portfólio inteiro. Depois de corrigido, a base real tinha centenas de contratos a menos do que o dashboard indicava. Esse tipo de erro é mais perigoso que dado faltante, porque parece correto quando não é”, relata Rodrigues.
A multiplicidade de exigências regulatórias também adiciona complexidade ao processo. Hoje, empresas precisam lidar simultaneamente com normas e diretrizes de diferentes órgãos e iniciativas. Para ele, CMN 4.945, CVM 193, Taxonomia Sustentável Brasileira, SUSEP. “Cada regulador possui exigências específicas. Quem trata isso de forma isolada, regulador por regulador, acaba criando uma operação difícil de escalar”.
Além de apoiar a tomada de decisão, os dados também têm papel cada vez mais importante na transparência dos relatórios de sustentabilidade. Na visão de Rodrigues, a tecnologia amplia a credibilidade dessas publicações quando reduz a dependência de autodeclarações e fortalece a verificação das informações. “A tecnologia aumenta a credibilidade quando substitui autodeclaração por verificação.”
Segundo ele, relatórios tradicionalmente baseados em informações fornecidas pelas próprias empresas ganham mais consistência quando são confrontados com fontes externas. “Relatórios tradicionais dependem muito do que a própria empresa informa sobre si mesma. Quando essas informações são cruzadas com dados externos, como clima, satélite, mídia e registros públicos, o relatório deixa de representar apenas uma intenção e passa a apresentar evidências.”
Ferramentas de monitoramento reputacional contínuo e modelagem climática de alta resolução contribuem para esse processo ao gerar indicadores independentes da percepção da própria organização. “Monitoramento reputacional contínuo e modelagem climática de alta resolução geram métricas que a empresa não escolhe, ela recebe. Isso aumenta a confiança de quem lê o relatório, seja regulador, investidor, cliente ou cooperado”, explica Rodrigues.
Nesse cenário, a governança de dados passa a ocupar posição estratégica dentro das empresas. De acordo com ele, ela é o fator que transforma informação em gestão efetiva. “Porque sem governança, ESG vira discussão. Com governança, vira gestão.”
O executivo avalia que o valor dos dados está cada vez menos em análises pontuais e cada vez mais na capacidade de garantir sua origem, qualidade e rastreabilidade ao longo do tempo. “O valor está cada vez menos na análise feita uma única vez e cada vez mais na capacidade de garantir a origem, a qualidade e a rastreabilidade dos dados ao longo do tempo.”
Uma estrutura sólida de governança também ajuda as empresas a responderem a diferentes exigências regulatórias sem precisar reconstruir processos a cada nova norma. “Além disso, uma boa governança permite responder a diferentes exigências regulatórias usando a mesma base de dados, sem precisar recomeçar o trabalho a cada nova regulamentação”, afirma Rodrigues.
Na visão do executivo, essa capacidade se tornou um diferencial para as organizações que buscam atuar de maneira mais preparada diante das mudanças do mercado e do ambiente regulatório. “No fim, é isso que separa as organizações que apenas reagem às exigências das que conseguem se preparar para elas”, conclui.
