Na reforma tributária, a inteligência contábil será decisiva para a competitividade das empresas 

Quando a dúvida bate à porta de uma empresa, a primeira voz que o empresário procura ouvir é a da contabilidade. Essa confiança não nasceu por acaso, foi construída nos bastidores, a cada crise superada, a cada decisão importante tomada longe dos holofotes. Sempre fomos a espinha dorsal dos negócios, ainda que muitas vezes vistos apenas como uma formalidade indispensável. 

Mas essa percepção está mudando. A reforma tributária, a maior transformação do sistema de tributação do consumo no país, coloca a contabilidade diante de um momento que não admite plateia: não basta acompanhar a mudança, é preciso ajudar a conduzi-la. O trabalho que por tanto tempo foi discreto passa a ocupar um lugar visível nas decisões das empresas. 

A transição começou em 2026 e seguirá até 2033. Nesse período, as empresas terão de adaptar documentos fiscais, sistemas e processos ao IBS e à CBS, enquanto continuam atendendo às exigências do modelo atual. Esse trabalho já seria considerável, mas representa apenas parte do desafio. A reforma também pode alterar a lógica econômica de operações que hoje parecem bem resolvidas. 

Por isso, as empresas precisarão repensar seu modelo de negócios. Será necessário examinar de quem compram, para quem vendem, onde estão e para quais regiões destinam seus produtos e serviços, como formam seus preços e quais prazos oferecem. Uma decisão que hoje preserva a margem pode produzir outro resultado no novo sistema. As condições negociadas com fornecedores e clientes, os efeitos dos créditos tributários e o intervalo entre faturar e receber também precisarão entrar nessa análise. 

É aí que o contador se torna protagonista. Ele conhece os números, acompanha a rotina da empresa e pode ajudar o empresário a entender como essas peças se relacionam. Seu papel será fazer diagnósticos, comparar cenários e mostrar as consequências de cada escolha antes que elas apareçam no caixa. O empresário continuará querendo saber quanto vai pagar de imposto, mas precisará entender também se a maneira como sua empresa compra, vende e negocia ainda faz sentido. Essa resposta será construída em parceria com o contador. 

E não existe uma solução única. Uma indústria, uma loja e uma prestadora de serviços enfrentarão questões diferentes. Mesmo empresas do mesmo setor podem ter fornecedores, clientes e formas de recebimento que levem a resultados distintos. As optantes pelo Simples Nacional também terão de avaliar como suas escolhas tributárias se relacionam com a competitividade e com as condições exigidas por seus clientes. Para orientar bem, será preciso conhecer a legislação e, com a mesma atenção, o negócio que está diante de nós. 

Muitas decisões envolverão diferentes áreas da empresa: compras, vendas, faturamento e financeiro terão de compreender o que muda e atuar de forma coordenada. O contador pode ajudar a reunir essas frentes, traduzir as exigências em procedimentos e acompanhar os resultados da adaptação. 

A tecnologia será indispensável nesse percurso. Sistemas atualizados e dados confiáveis permitirão cumprir exigências e comparar cenários com mais rapidez. A automação também pode liberar tempo hoje consumido por tarefas repetitivas. Mas uma ferramenta não conhece os planos do empresário nem decide, sozinha, qual caminho faz sentido para sua empresa. O valor do contador estará cada vez mais na capacidade de interpretar informações e transformá-las em orientação. 

É por isso que considero esta a maior oportunidade da nossa geração para mostrar o alcance da profissão. Durante anos, defendemos uma contabilidade mais próxima das decisões empresariais. A reforma torna essa proximidade uma necessidade. O empresário precisará de alguém que entenda suas operações, faça as perguntas certas e o ajude a planejar mudanças sem perder de vista a continuidade do negócio. 

Assumir esse papel não significa ter todas as respostas prontas. Algumas questões ainda dependerão de definições e ajustes ao longo da transição. Precisamos explicar ao cliente o que já está estabelecido, o que deve ser acompanhado e quais passos ele pode dar agora. A confiança construída nos bastidores continua sendo a base dessa relação. 

A reforma tributária tornará mais visível o impacto que a contabilidade sempre teve sobre os negócios. Desta vez, porém, nossa atuação poderá influenciar a forma como empresas inteiras vão operar nos próximos anos. Temos diante de nós a oportunidade de orientar essa transformação ao lado dos empresários e de levar ao poder público a realidade de quem terá de colocá-la em prática. O contador sempre esteve presente quando uma empresa precisou decidir seu futuro. Agora, o futuro de milhares delas dependerá ainda mais da nossa capacidade de agir. 

Artigo escrito por Antonio Carlos Santos, presidente do Sescon-SP e da Aescon-SP  

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