A saúde digital reúne tecnologias, práticas e processos que utilizam recursos digitais para aprimorar a assistência, ampliar o acesso e transformar a experiência de cuidado. Para o usuário, ela se materializa em aplicativos de bem-estar e monitoramento (como pressão arterial, sono e alimentação), plataformas de operadoras e laboratórios, o Meu SUS Digital, serviços de telessaúde com atendimento profissional por chat e vídeo e, cada vez mais, soluções baseadas em inteligência artificial. Para os profissionais de saúde, abrange prontuários eletrônicos, ferramentas de apoio ao diagnóstico e até a possibilidade de realizar procedimentos à distância. Já para empresas e governos, a saúde digital oferece instrumentos capazes de ampliar acesso, analisar riscos e apoiar a gestão da saúde populacional.
O Brasil vive um ponto de virada, especialmente com o amadurecimento da telemedicina, que se tornou estratégica para a sustentabilidade do sistema. Entre as empresas associadas à Saúde Digital Brasil, o número de teleconsultas saltou de 200 mil em 2020 para 3,1 milhões em 2025, com crescimento acelerado nos últimos dois anos — sinal claro de consolidação do modelo.
Oportunidades
A gestão de saúde populacional nunca dispôs de tantas ferramentas para mapear, segmentar e intervir em riscos de forma precisa. Tecnologias de análise de dados permitem identificar indivíduos susceptíveis, acompanhar trajetórias de cuidado e orientar decisões mais assertivas, tanto em políticas públicas quanto em programas corporativos de saúde e bem-estar.
Um exemplo recente vem das adaptações necessárias para cumprir as mudanças na NR 1, que incluem o mapeamento de riscos psicossociais. Ferramentas digitais tornam viável a aplicação em larga escala, asseguram privacidade, favorecem análises consistentes e apoiam a construção de planos de ação mais efetivos. Para os casos em que se detectam riscos elevados ou doenças já instaladas, o acesso a profissionais como psiquiatras e psicólogos torna-se essencial — e a telessaúde oferece modelos mais flexíveis, com custos acessíveis e possibilidade de conciliar consultas com a rotina de trabalho.
Para as empresas, plataformas integradas de telessaúde ampliam a abrangência dos programas de saúde e bem-estar, complementando ou fortalecendo benefícios já existentes. Além de oferecer ao usuário uma jornada mais completa, esses recursos podem reduzir absenteísmo, melhorar a satisfação e contribuir para o controle de custos assistenciais.
Desafios
Serviços de saúde digital lidam com grande volume de dados pessoais e sensíveis, o que exige infraestrutura robusta e políticas rigorosas de segurança da informação em conformidade com a legislação. Além disso, quando envolvem atos profissionais, como consultas e emissão de laudos, permanecem sujeitos às regras dos conselhos de classe, incluindo requisitos de qualificação, registro e responsabilidade técnica.
A regulamentação recente impulsionou o setor, mas também estimulou a entrada de empresas ainda pouco estruturadas, sem a maturidade clínica, tecnológica ou legal necessária. Por isso, ao contratar soluções digitais, é fundamental verificar a aderência às normas nacionais, a qualidade da base profissional e o uso de práticas clínicas sustentadas por evidências científicas.
Outro ponto de atenção é o uso inadequado da inteligência artificial por pessoas leigas para autodiagnóstico ou automedicação. Sem treinamento específico e filtros médicos rigorosos, ferramentas de IA podem recorrer a fontes sem evidência, apresentar análises equivocadas ou até gerar “alucinações”, isto é, respostas inventadas quando há falta de informação adequada.
Perspectivas
A incorporação estruturada de tecnologias de saúde digital pode transformar a distribuição dos serviços no país, reduzindo desigualdades regionais sem exigir deslocamento de profissionais. O intercâmbio de informações entre equipes, a discussão de casos e o acesso a prontuários integrados têm potencial para fortalecer a formação clínica e promover cuidado mais coordenado.
Com o avanço da legislação e a crescente profissionalização do mercado, os serviços tornam-se mais auditáveis, permitindo aprimorar processos, reduzir burocracias e identificar fraudes com maior precisão.
Outra tendência forte é a criação de linhas de cuidado digitais, capazes de guiar pacientes com condições específicas por jornadas mais assertivas — desde o diagnóstico precoce até o acompanhamento contínuo — aumentando a qualidade de vida e contribuindo para a longevidade. À medida que a tecnologia e a qualidade clínica evoluem juntas, essas soluções deixam de ser diferenciais e passam a ser critérios essenciais na escolha de instituições e prestadores de saúde.
Artigo escrito pela Dra. Jane Teixeira, que é gerente da Saúde Digital do Grupo Fleury
