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Cadê o contador que estava aqui? 

É fato que o contador precisa e tem buscado mudar o seu perfil, deixando de ser aquele mero porta-voz das autoridades fiscais (focado em cálculos e entregas de guias de impostos para pagamento) para um profissional mais atento aos negócios das empresas 

O mundo está cada vez mais globalizado e mudando muito rápido. Globalização essa que traz desafios e oportunidades para as empresas e os profissionais de todas as áreas. Aqueles que conseguem entender e compreender tais desafios e oportunidades, sempre saem na frente e conseguem um lugar melhor ao sol. A mudança que estamos experimentando no mundo atual é resultado dessa globalização avassaladora que conta com a tecnologia como aliada e juntas, vem ao longo dos últimos anos, quebrando barreiras dia após dia. 

Não é novidade, que a nova contabilidade que vigora desde 2007, com a vinda das IFRSs (International Financial Reporting Standards) para o Brasil, é mais abrangente, traz muitas coisas subjetivas e um certo grau de complexidade que exige dos profissionais da contabilidade, um maior esforço e estudo da ciência contábil. 

Mas a nova contabilidade não traz também a necessidade de termos um novo perfil de contador? Passados mais de 10 anos desde o início da vigência das IFRSs, e os contadores de empresas ou que trabalham em escritórios de contabilidade estão realmente preparados para essa nova ordem da contabilidade global, digo a contabilidade internacional? 

É fato que o contador precisa e tem buscado mudar o seu perfil, deixando de ser aquele mero porta-voz das autoridades fiscais (focado em cálculos e entregas de guias de impostos para pagamento) para um profissional mais atento aos negócios das empresas.  

O contador está tentando buscar no mercado um posicionamento de consultor de negócios e que realmente ajuda as empresas e os empreendedores. Muito louvável e digno de reconhecimento essa nova postura que alguns contadores estão tomando.  

Mas como ser um bom consultor, que ajuda o empresário a tomar decisões melhores com base na contabilidade, se essa contabilidade que está sendo usada, muitas vezes não reflete na prática a essência dos negócios que estão sendo transacionados? Ou seja, qual resultado poderia se esperar de uma análise feita com base em uma demonstração contábil que não esteja aderente à nova contabilidade, digo, as IFRSs? 

Ainda não temos uma pesquisa abrangente para confirmar os fatos, mas quem trabalha no mercado contábil e está inserido no mundo corporativo sabe muito bem que as pequenas e médias empresas no Brasil pouco estão aderentes às novas práticas contábeis adotadas no Brasil (me refiro aqui àquelas publicadas pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) e aprovadas pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC)).  

Esse grupo de empresas ainda mantém seu foco na contabilidade puramente fiscal e não enxergam valor em demonstrativos contábeis preparados segundo as novas práticas contábeis.  

Mas por que ainda temos esse posicionamento de baixa aderência das normas contábeis internacionais nas empresas de pequeno e médio porte após tão longo tempo desde sua implementação?  

  • Seria porque o tema é realmente complexo e de difícil entendimento?  
  • Seria porque custa mais para as empresas aderirem a essa nova contabilidade? 
  • Seria porque o contador não é capaz de explicar ao empresário o real valor de ter os demonstrativos contábeis segundo a nova contabilidade?  
  • Seria porque o próprio contador ainda não entende a nova contabilidade? 
  • Ou seria qualquer outro motivo? 

Difícil achar uma resposta para esse dilema, não é mesmo?  

Um fato interessante que me intriga e que tem tudo a ver com isso é o volume de contadores que são reprovados no exame de suficiência da profissão. O CFC (Conselho Federal de Contabilidade) divulga todos os anos o resultado dos exames por região e o percentual de reprovação é demasiadamente alto. Algo que coloca um ponto de interrogação “?” muito grande em todo o sistema.  

Abaixo, apenas a título de exemplo, o resumo do resultado do exame de 2021 divulgado pelo CFC: 


Fonte: https://cfc.org.br/registro/exame-de-suficiencia/relatorios-estatisticos-do-exame-de-suficiencia/ 

77,30% de reprovação. O que realmente está acontecendo? 

Que a nova contabilidade tem maior grau de complexidade, ninguém questiona. Mas porque temos um número elevado de reprovação? Seria a incapacidade do contador em compreender a nova contabilidade oriunda de sua má preparação para o exame? Ou seria a qualidade dos cursos de graduação que não conseguem preparar o estudante para prestar o exame? 

Não é de se espantar a quantidade de empresas que oferecem cursos preparatórios para o exame do CFC hoje em dia dada a dificuldade que os profissionais enfrentam para conseguirem ser aprovador no exame. Mas de certa forma, a julgar pelos resultados dos exames, até mesmo esses cursos preparatórios não estão conseguindo preparar os estudantes para o exame. 

A questão é: se o próprio contador tem dificuldades e não está totalmente preparado para entender a nova contabilidade, como é que o empresário, empreendedor ou gestores das empresas vão compreender o valor da contabilidade?  

Quem é que vai demonstrar isso a eles? 

Esse texto não é uma crítica ao profissional contador, mas apenas uma observação para nossa reflexão, pois a “ciência contábil”, agora de roupa nova, ao ver o cenário atual no Brasil, deve estar se perguntando: Cadê o contador que estava aqui? 

Com certeza devemos fazer essa reflexão. 

Artigo escrito por Edson Teixer, que é diretor executivo de contabilidade da ANEFAC 

Edson Teixer, diretor de contabilidade ANEFAC e sócio da IRKO RJ
Edson Teixer, presidente regional Rio de Janeiro da ANEFAC e sócio da IRKO RJ

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