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Como o ESG impacta as fusões e aquisições 

As mudanças provocadas pelas demandas ambientais, sociais e de governança, que compõem os fatores ESG (environmental, social e governance), estão afetando todos os mercados no Brasil e no mundo. Em constante evolução, ao refletir as três práticas, as estratégias dos negócios têm focado em agregar valor e, ao mesmo tempo, ganhar vantagem competitiva. Falando especificamente em M&A, as empresas estão correndo para adotar os fatores a fim de melhor se posicionar para reduzir riscos, estabelecer confiança com os stakeholders e crescer de forma sustentável. Toda essa temática foi discutida no 1º Fórum ANEFAC Tec, realizado em julho, em São Paulo. 

A urgência em torno do investimento em práticas ESG e o valor em jogo têm um efeito tangível na atividade de M&A. O ESG está levando as empresas globalmente a repensar, recalibrar e, às vezes, até reinventar seus modelos de negócios. Em muitos casos, os resultados desses processos de pensamento incluem o M&A. Além das fusões e aquisições orientadas para a sustentabilidade, o impacto do ESG no mercado global nesse mercado é generalizado. Os compradores de qualquer tipo de negócio precisam ter certeza de que não estão adquirindo operações tóxicas que prejudiquem suas políticas e ambições ESG. 

A adoção de práticas ESG já é uma realidade nos mercados brasileiro e mundial. Assim, empresas e fundos de investimento estão cada vez mais passando a considerá-las na tomada de decisão de aquisições e investimentos. Com isso, os fatores efetivamente influenciam nas operações de M&A. 

Não podemos esquecer que o mercado de aquisições e fusões no Brasil, como mostram os dados de uma pesquisa da KPMG, em 2021, bateu recorde de transações, totalizando 1963. Sendo este número 59% superior aos 1.231 observados em 2019. O resultado é o melhor em 25 anos. E, segundo a empresa, deve continuar crescendo devido a movimentação do mercado, principalmente, com destaque, por exemplo, ao 5G e ao metaverso e tudo o que dará suporte para o seu desenvolvimento em diversos setores. Além do setor financeiro que continuará passando por uma grande transformação numa velocidade muito maior para atender as novas demandas tecnológicas.  

Para ilustrar um pouco esse cenário, duas pesquisas realizadas e lideradas por Alexandre Garcia, pró-reitor de pós-graduação na Fecap e que palestrou no evento, já publicadas em periódicos internacionais, mostram resultadas que merecem atenção e análise.   

A primeira comparou o desempenho ESG versus desempenho financeiro somente de empresas pertencentes aos países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). E os resultados demonstraram uma associação negativa e estatisticamente significativa entre o desempenho ESG e financeiro das empresas da amostra (foram 715).  Ou seja, quanto maior o desempenho em ESG, menor o indicador de retorno sobre investimentos.

Já a segunda pesquisa utilizou dois países emergentes do BRICS com melhores performance em ESG, que foram Brasil e África do Sul, comparado com outros 12 países desenvolvidos europeus mais os Estados Unidos, totalizando uma amostra de 2.165 empresas. Os resultados indicam, segundo Garcia, que investidores respondem positivamente às empresas com melhor desempenho ESG, tanto em mercados de economia desenvolvida como emergente. Mas, na perspectiva de indicadores contábeis houve uma associação negativa e estatisticamente significativa entre o desempenho ESG e financeiro das empresas de países de economia emergente diferentemente ao que ocorre na amostra somente com empresas de países desenvolvidos. Essa diferença pode ser explicada pela fragilidade do ambiente institucional, cultural, político e econômico dos países de economia emergente.  

Outro ponto bastante importante, levantado por Marco Fujihara, diretor de novos negócios na TechSocial e que palestrou no evento, é que o ESG é uma questão de alocação de capital. Dessa forma, se é uma alocação de capital todo o processo de M&A precisa levar em consideração os critérios e indicações ESG para facilitar a alocação de capital e diminuir o risco das transações. ESG é um fator crucial na alocação de capital, consequentemente na alocação de novos projetos de M&A. 

“É muito simples no M&A tem o lado de quem precisa do capital e o lado de que vai alocar o capital.  Quem vai alocar sempre o vai fazer com o menor risco possível e com a maior rentabilidade possível. Já quem precisa do capital deve demonstrar que tem o menor risco para receber aquele investimento. Por isso, é importante que existam indicadores para mensurar os fatores ESG”, explica Fujihara.  

É importante também ficar claro que não é receita de bolo, pois cada setor econômico deve ter indicadores individuais de ESG. “Não podemos comprar uma mineradora, por exemplo, com uma loja de tecidos de carros. Os impactos delas são completamente diferentes. Mas uma coisa é certa, a tendência é mensurar, mostrar efetivamente os resultadas das estratégias utilizadas pelo negócio em ESG”, alerta Fujihara.  

Com relação ao ESG, Marta Pelucio, presidente nacional na ANEFAC e que fez a apresentação do evento, avalia que as pessoas ainda têm dificuldade em entender o papel dos organismos normatizadores de informação financeira, com enfoque em ESG e os organismos internacionais que enfocam as questões de sustentabilidade. Os organismos como o GRI (Global Reporting Initiative) têm como enfoque a geração de informações que possibilitem o entendimento dos impactos das entidades na sociedade como um todo. Ou seja, um impacto de dentro para fora (inside-out).  

Já os organismos normatizadores como o ISSB (International Sustainability Standards Board) tem como enfoque a geração de informações que possibilitem os impactos ambientais, sociais e de governança corporativa no resultado financeiro das empresas. Ou seja, um impacto de fora para dentro (outside-in). Na verdade, o GRI trabalha com uma dupla materialidade, impacto na sociedade e impacto financeiro. Enquanto, o ISSB trabalha com a materialidade única de impacto financeiro. “É sempre importante discutir os impactos financeiros do ESG, as questões normativas e sobre como as entidades devem se preparar para essa nova demanda de informações por parte do mercado”, aponta Pelucio. 

Outro palestrante no evento foi Fernando Mattar, sócio líder de fusões e aquisições em serviços financeiros da KPMG. 

Marco Fujihara, da TechSocial, Marta Pelucio, da ANEFAC, Fernando Mattar, da KPMG, e Alexandre Garcia e Edison Simoni, da Fecap.

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