Previous
Next

O machado, a inteligência artificial de antigamente…

Quando missionários anglicanos introduziram um machado de aço em uma tribo primitiva na Austrália, perceberam que a introdução de uma mudança tecnológica tem reflexos no sistema social. Isso ocorre porque o machado de pedra polida era uma parte básica da tecnologia da tribo, usado por homens, mulheres e crianças, mas era mais que um instrumento; era um símbolo social de masculinidade, definindo relações, onde apenas um homem adulto podia fazer seu próprio machado de pedra; uma mulher ou criança precisava pedir sua permissão para ter um machado. Ao introduzir indiscriminadamente o machado de aço na comunidade, que era mais eficiente que o de pedra, a aceitação foi geral. Porém, o homem adulto, incapaz de fazer o machado de aço e sem mais necessidade do de pedra, tornou-se um comum, perdendo seu status de único fazedor de um elemento vital para aquela sociedade. Essa história real está no livro “Carreira: a essência sobre a forma”, na parte em que o autor fala sobre as mudanças no mundo do trabalho.

Como na última coluna falei sobre a linguagem natural e a inteligência artificial, fiquei pensando sobre isso e ao olhar para essa história da introdução do machado de aço na tribo primitiva da Austrália, algumas reflexões vieram à minha cabeça. A introdução do machado de aço perturbou a estrutura social existente dentro da tribo. O tradicional machado de pedra não era apenas uma ferramenta, mas um símbolo profundamente enraizado no tecido social, definindo relações e dinâmicas de poder.

O machado de pedra servia como um poderoso símbolo de masculinidade dentro da tribo. Não era apenas um instrumento prático, mas carregava um significado cultural e social importante. A capacidade de criar o próprio machado de pedra estava ligada ao status de homem adulto, reforçando uma hierarquia dentro da comunidade. O machado de aço, sendo mais eficiente, levou à sua ampla aceitação na comunidade. No entanto, a facilidade com que pôde ser adquirido diminuiu a importância simbólica do tradicional machado de pedra, resultando em uma mudança na dinâmica do poder, afetando particularmente os homens adultos que anteriormente detinham o controle exclusivo sobre a criação do machado de pedra.

A história ilustra como uma mudança tecnológica aparentemente simples pode ter implicações profundas no status e na identidade dos indivíduos em uma sociedade. Os homens adultos, que outrora foram os criadores exclusivos de uma ferramenta vital, viram seu status diminuído à medida que a comunidade adotava uma tecnologia mais eficiente, mas socialmente menos exclusiva. Será a inteligência artificial o novo machado de aço, que irá desbancar velhas estruturas de poder, símbolos e uma certa dominação social em muitas organizações, instituições e sociedades?

A história ressalta a importância de compreender o contexto cultural ao introduzir novas tecnologias. Embora os avanços tecnológicos possam trazer eficiência e progresso, também podem remodelar as estruturas sociais, e as consequências não intencionais devem ser consideradas. Em tempos de inteligência artificial, precisamos estar de cabeça aberta e, como dizem por aí, para abrir uma cabeça, nada melhor que um machado. Eu recomendo sempre o de Assis, que diria: “na comédia da tecnologia e da tradição, o machado de aço muitas vezes nos deixa refletindo sobre o profundo, não com solenidade, mas com o brilho malicioso do riso”.

Este ano eu conheci o ChatGPT e contei a história do machado para ele e depois perguntei: O que Machado de Assis diria dela? O ChatGPT respondeu assim: “Embora não haja uma citação direta de Machado de Assis que eu possa extrair, posso elaborar uma frase final em um estilo que lembra seu humor literário” e me deu: “na comédia da tecnologia e da tradição, o machado de aço muitas vezes nos deixa refletindo sobre o profundo, não com solenidade, mas com o brilho malicioso do riso”. Então pensei sobre como será o nosso futuro com inteligência artificial, e fui realmente nas obras de Machado de Assis pesquisar alguma frase sobre futuro, e encontrei: “Meu olhar, enfadado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás dele os futuros”. Essa sim, uma citação verdadeira de Machado de Assis.

Vamos então para os futuros! Chegamos ao final de mais um ano e quero desejar a vocês um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo, que certamente nos trará vários machados de aço… mas não deixemos de usar também o de Assis.

 

…………………………………………………………………….   

Se você tem um causo inusitado, engraçado ou curioso envolvendo o mundo corporativo para contar, envie para esta coluna pelo e-mail comunicacao@anefac.org.br, que nosso lorde está pronto para escrachar. Mas pode ficar tranquilo, como todo lorde que se preze, Lord Excrachá é discreto. (Importante: as identidades dos colaboradores desta coluna não serão divulgadas.)   

…………………………………………………………………….   

Lord Excrachá é uma criação de Emerson W. Dias, vice-presidente de Capital Humano da ANEFAC e fundador do portal e da série de livros O Inédito Viável.   

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.