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Relatórios de Sustentabilidade entram em nova fase e passam a dialogar diretamente com o valor dos negócios 

Para compreender como os Relatórios de Sustentabilidade vêm evoluindo diante das exigências do mercado, da convergência regulatória internacional e da crescente centralidade do ESG na linguagem financeira, a Revista ANEFAC conversou com a Dra. Gisele Batista, membro do Comitê Técnico do Prêmio Boas Práticas ESG e representante da ANEFAC no ESG Group do ICFOA. 

Ao longo da entrevista, ela analisa as transformações estruturais no reporte socioambiental, as principais tendências para os próximos anos e o papel da premiação da ANEFAC na indução de boas práticas, transparência e consistência metodológica. 

Revista ANEFAC: Como as pesquisas e os movimentos recentes do mercado em ESG influenciaram a forma e o conteúdo dos Relatórios de Sustentabilidade? Qual é o atual cenário? 

GB: Estamos entrando na era em que carbono, clima e sustentabilidade passam a ser variáveis centrais da linguagem financeira. Isso muda, de forma estrutural, o papel dos Relatórios de Sustentabilidade, que deixam de ser instrumentos de comunicação institucional para se consolidarem como parte da arquitetura de informações materiais a serem reportadas ao mercado. A sustentabilidade, então, deixa de ser uma agenda paralela e passa a influenciar diretamente como as empresas reportam riscos, projetam desempenho financeiro e sustentam valor no longo prazo. 

Na prática, isso se traduz em uma transformação profunda no conteúdo e na lógica desses relatórios. ESG deixa de ser narrativa e passa a operar como infraestrutura de dados, cuja governança exige consistência metodológica, comparabilidade e integração com finanças. O avanço das normas internacionais e a convergência entre frameworks, agenda na qual a ANEFAC tem atuado de forma relevante, inclusive em articulação com fóruns globais como o ICFOA, reforçam que o mercado não busca mais compromisso declaratório, mas evidência de como clima, cadeia de valor e governança, por exemplo, impactam CAPEX, resiliência e custo de capital. Não se trata mais de reportar o que a empresa faz, mas de demonstrar como ela se posiciona diante de riscos sistêmicos que já afetam cadeias produtivas e mercados em escala global. 

O cenário atual, portanto, é menos sobre comunicação e mais sobre capacidade. Capacidade de estruturar dados confiáveis, de mapear materialidade, financeira e não financeira, com consistência e de integrar essas informações à tomada de decisão. Estamos entrando em uma era em que relatórios não serão mais avaliados pelo volume de informação, mas pela qualidade das conexões que conseguem estabelecer entre risco climático, estratégia corporativa e desempenho econômico. E, cada vez mais, pela sua capacidade de sustentar o valuation da companhia, na medida em que investidores passam a precificar risco climático, exposição de ativos e consistência de transição. Esse movimento começa a diferenciar quem já entendeu ESG como um novo modelo de negócio de quem ainda opera no campo de uma narrativa subjetiva e superficial. 

Revista ANEFAC: Quais tendências identificadas nos Relatórios de Sustentabilidade devemos observar neste e nos próximos anos? Eles refletem a maturidade crescente do mercado em relação às práticas ESG? 

GB: Se existe uma tendência clara para os próximos anos, é que os Relatórios de Sustentabilidade deixarão de medir apenas desempenho e passarão a revelar capacidade de transição. A consolidação das normas IFRS S1 (sustentabilidade) e S2 (clima), no Brasil operacionalizadas pela Resolução CVM nº 193/2023, acelera esse movimento ao integrar, de forma mais direta, sustentabilidade e linguagem financeira. O mercado não quer mais apenas entender o que a empresa fez, mas como ela está se preparando para operar em um cenário de pressão climática, regulatória e econômica crescente. Nesse contexto, ESG deixa de ser um conjunto de práticas e passa a configurar, de forma cada vez mais evidente, um modelo de negócio, capaz de influenciar estratégia, cultura e decisões de longo prazo. 

Uma das mudanças mais estruturantes é o deslocamento do olhar para a cadeia de valor. As emissões de Escopo 3 deixam de ser um desafio técnico e passam a representar o principal vetor de risco climático e de transição para as organizações, exigindo das empresas uma atuação que vai além da gestão interna e avança para a governança de fornecedores, parceiros e clientes. Isso redefine o papel corporativo: sai de um modelo centrado no controle operacional e evolui para uma lógica de influência sistêmica, em que engajamento, rastreabilidade e qualidade de dados passam a ser determinantes para a credibilidade das estratégias de descarbonização. 

Esse avanço, no entanto, não ocorre de forma isolada. A consolidação de padrões internacionais vem sendo construída a partir de contribuições técnicas de diferentes jurisdições, e o Brasil tem desempenhado um papel relevante nesse processo. A participação da ANEFAC, junto ao grupo ESG do ICFOA, nas discussões do Exposure Draft do ISSB (novembro de 2025), especialmente nas contribuições relacionadas à revisão dos padrões SASB e à sua interoperabilidade com o IFRS S2, reforça a importância de aprimorar métricas, qualidade de dados e transparência em temas como Escopo 3, riscos físicos e gestão da cadeia de valor. Esse tipo de atuação contribui para aumentar a consistência global dos relatórios e evidencia como a experiência brasileira tem colaborado, de forma concreta, para a evolução das práticas internacionais de disclosure. 

Ao mesmo tempo, os riscos de sustentabilidade (IFRS S1) e climáticos (IFRS S2) deixam de ocupar um espaço periférico e passam a integrar o núcleo da gestão empresarial. A distinção entre riscos físicos e de transição já se traduz em impactos concretos sobre receitas, custos, ativos e acesso a capital, exigindo maior sofisticação analítica nos relatórios, com incorporação de cenários, métricas de resiliência e transparência sobre exposição financeira ao clima. Estamos, portanto, diante de uma inflexão clara: temas socioambientais deixam de ser tratados como externalidades e passam a ser reconhecidos como riscos financeiros sistêmicos, com impacto direto na sustentabilidade econômica dos negócios. 

A evolução do cenário brasileiro, impulsionada pela adoção antecipada dessas normativas, não apenas eleva o nível dos relatórios no país, mas também contribui para a consolidação de práticas de governança ESG mais robustas em outros mercados. Isso reforça uma mudança importante: transparência e intencionalidade, quando bem estruturadas, deixam de ser obrigação e passam a ser elementos centrais de competitividade, confiança e longevidade dos negócios. 

Revista ANEFAC: De que maneira a premiação da ANEFAC acompanhou e reconheceu, ao longo de seus dois anos, a evolução das exigências do mercado e dos stakeholders em relação à transparência, métricas e padronização dos Relatórios de Sustentabilidade? E como deve ficar para este ano e os próximos? 

GB: A premiação da ANEFAC está inserida em um cenário estratégico em que a agenda de sustentabilidade passa a ocupar, de forma definitiva, o centro das decisões financeiras. Mais do que reconhecer boas práticas, exerce um papel estruturante no mercado ao valorizar consistência, governança de dados e geração de valor compartilhado, alinhados a padrões nacionais e internacionais de reporte ESG. O prêmio nasce com uma inovação relevante: além da robustez metodológica e da consistência dos dados, os cases são avaliados de forma criteriosa pela representatividade do nível de maturidade em ESG, evidenciada pela capacidade de transformar riscos em oportunidades ao longo da cadeia de fornecedores, cuja transparência revela essa intencionalidade na lógica econômica da organização. 

Esse posicionamento é altamente aderente às transformações e às exigências do mercado. À medida que frameworks se consolidam e a demanda por comparabilidade se intensifica, a premiação também eleva seu nível de rigor, incorporando critérios mais técnicos e alinhados às melhores práticas nacionais e globais. Isso contribui para consolidar uma referência de excelência no Brasil, estimulando empresas a avançarem na estruturação de dados, no mapeamento de materialidade e na integração entre sustentabilidade, cultura e governança. 

Estamos em um momento em que não basta reportar; é necessário demonstrar preparo, resiliência e coerência estratégica. Não se trata apenas de reconhecer quem reporta melhor, mas de induzir uma mudança concreta na forma como as lideranças atuam e como as organizações estruturam suas decisões. Nesse contexto, o Prêmio Boas Práticas ESG da ANEFAC se consolida como um instrumento de direcionamento do mercado, ao estabelecer parâmetros mais elevados de transparência e ao incentivar uma agenda em que sustentabilidade, finanças e estratégia deixam de caminhar separadamente e passam a operar de forma integrada, como base para a geração de valor compartilhado no longo prazo. 

Dra. Gisele Batista, membro do Comitê
Técnico do Prêmio Boas Práticas ESG e
representante da ANEFAC no ESG Group do
 ICFOA

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