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O protagonismo da cultura corporativa nas práticas ESG 

Os investidores internacionais estão prestando cada vez mais atenção às práticas ambientais, sociais e de boa governança (critérios ESG) para ajudá-los a tomar suas decisões de investimento. Essa forma emergente de análise para determinar o valor do investimento está crescendo em importância em todo o mundo. À medida que as partes interessadas, os reguladores e a comunidade de investimentos em geral dão maior ênfase a esses fatores, eles estão atuando como catalisadores para maior aplicação e relevância nas decisões de investimentos. 

Uma importante questão dentro da aplicação dos critérios ESG é a sua inserção dentro da cultura corporativa, pois é somente desta forma que a empresa poderá comprovar e mostrar aos investidores que está transformando as suas operações para um modelo sustentável. Na Eneva, Aline Louise, executiva de ESG e responsabilidade social e que palestrou no Congresso ANEFAC no painel o ESG na cultura corporativa, conta que a empresa realizou recentemente o quinto inventário de emissões de gases de efeito estufa e recebeu o Prêmio Ouro Verde, reconhecimento da rastreabilidade das suas novas informações. 

Para chegar nesse resultado, a empresa, que já tem em seu Plano estratégico para 2030 assumir a liderança da transição energética no Brasil, criou fóruns internos de ideias, a liderança se reúne a cada três meses para avaliar o que foi feito no último trimestre e traçar os desafios dos próximos três meses, participa da Rede Brasil para o Pacto Global, iniciativa da ONU pelo Desenvolvimento Sustentável, tem iniciativas para desenvolver as comunidades e municípios onde atua, além de estar no projeto Amazônia Legal.  

O importante da agenda ESG é a empresa olhar para dentro, para o seu próprio negócio e traduzir o que são os fatores dentro da sua cultura. Na percepção de Raquel Coutinho, carbon quantification and transparency manager da Petrobras, outra palestrante do Congresso ANEFAC, alguns pontos são importantes, mas principalmente a conexão das pessoas com o que é a sustentabilidade hoje e o que já foi no passado. “As pessoas precisam entender que a sustentabilidade era associada muitas vezes à custo, agora a visão é outra, a de criação de valor”, diz.   

Assim como na Eneva, a Petrobras também realiza o seu inventário de emissões. Há 20 anos a empresa tem a cultura de fazê-lo, focando na sustentabilidade estipulou metas de curto, médio e longo prazos para avançar na agenda e mostrou a todos o retorno econômico sobre a descarbonização das operações, assim a agenda ESG passou a ser algo fluído nas discussões. 

“Estar na liderança das questões ambientais, passa a ser não só um aspecto de competitividade, mas de sustentabilidade econômica. A conexão da agenda com o negócio efetivamente e a construção do plano de negócios a partir desse tipo de premissa, é algo que transforma o futuro da companhia. Hoje em dia, a Petrobras tem, além dos seus compromissos e metas anuais, métricas que influenciam na remuneração variável de 100% dos colaboradores, entre 20% dos níveis mais altos até 5% dos da base. Isso faz com que cada um busque se engajar para contribuir de fato para o avanço da agenda”, avalia Coutinho. 

Um fator importante é a compreensão do tema ESG não apenas pela direção, mas por todos os colaboradores. A mudança de cultura tem como base o entendimento de que as pessoas compreendam aquela linguagem, mudança climática, por exemplo, tem seus próprios jargões. Se uma pessoa não compreende o que é que está sendo falado, se afasta. Na Petrobras são realizados treinamentos com todos os 78 mil colaboradores visando o nivelamento e o conhecimento básico sobre o tema de mudança climática em transição energética, que é o foco do seu negócio.  

Coutinho explica que identificar o nível de conhecimento de cada um sobre o tema, olhando para a diversidade de cargos e conhecimentos foi fundamental para o avanço da agenda ESG. “Não pode ser uma conversa só da administração ou de uma camada da gestão é preciso criar canais de comunicação sem ruído a todos. Ninguém detém todo o conhecimento sobre o tema, mas a transparência pode ser um caminho”, pondera.  

Já para Carolina da Costa, partner & head of ESG Investiment da Mauá Capital, a questão da cultura corporativa sobre ESG começa quando os conselhos de administração se posicionam. “Os executivos provavelmente se preocupam em reproduzir essas dimensões, agora a dificuldade reside muitas vezes se o conselho não estiver alinhado com isso. O papel do conselho é deixar muito claro as ambições da empresa no médio e longo prazo, com metas intermediárias que, em muitos casos, impactam na remuneração e promoção dos executivos”, observa. 

Para ela, é preciso que todos estejam engajados, tragam suas incertezas e incômodos, façam o communication check do que acredita e do que realmente está sendo feito, além de investir em pessoas e em sistemas de remuneração e de comunicação. 

O olhar sob a ótica financeira  

O mercado financeiro é bastante diverso, são vários tipos de investidores e de agências, mas de acordo com Carolina da Costa, todos cada vez mais estão se movendo e seriamente comprometidos com a agenda ESG. No ano passado se falava muito sobre a importância de se investir em transição energética e quando começou a guerra entre Rússia e Ucrânia veio a limitação de gás natural e a questão da dependência de combustíveis fósseis, com isso, muitos investidores expandiram seu horizonte. Isso mostra a atenção à essas questões. 

Um grande fator que ela tem observado é que quando o assunto são os fatores ESG a visão que a empresa tem de si mesma é diferente da que os investidores têm dela. “As pessoas discordam muito no cenário de transição, por exemplo, quanto ao que a empresa deve fazer. Então, elas revisam o seu time line de transição e os investidores também. Por outro lado, elas usam pouco de lógica econômica, nem sempre o discurso versus ações efetivas é equivalente e, ainda, qual o resultado do Capex (Fluxo de Caixa Operacional) do investimento nas ações”, aponta Costa. 

Um exemplo é a empresa francesa Total que divulgou recentemente no seu balanço que 15% de todo o Capex seria para investimentos em biocombustíveis e combustíveis de baixo impacto ou fontes de energia de baixo impacto ambiental. Outro é a Shell falando que vai investir $ 10 bilhões dólares e a Petrobras em torno de $ 1,8 bilhões de dólares em ações que visam a redução de impacto ambiental.  

Segundo Costa, a empresa precisa se fazer algumas perguntas sobre as suas ações que o mercado financeiro vai olhar: Quais são KPIs? Quanto está sendo diretamente relacionado à materialidade do setor? Estou realmente sendo ambicioso, estabelecendo metas significativas? O compromisso é sólido e assertivo? Como conversa com o acordo de Paris? Como a governança está estabelecida para esse tipo de projeto? Como reporta? Há um agente verificando? E por aí vai.  

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Raquel Coutinho, carbon quantification and transparency manager da Petrobras
CAROLINA
Carolina da Costa, partner & head of ESG Investiment da Mauá Capital
Raquel Coutinho, carbon quantification and transparency manager da Petrobras
Raquel Coutinho, carbon quantification and transparency manager da Petrobras

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