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Que a inflação não volte, mas saibamos lidar com ela 

A economia brasileira viveu um longo período de alta inflação que durou décadas. Nesse tempo, o Brasil desenvolveu diversos mecanismos para lidar com a variação dos preços. Metodologias de atualização monetária de valores, indexação de salários e preços e tantas outras técnicas foram adotadas para lidar com essa mazela. 

E não foi diferente no que tange a gestão das empresas e suas informações financeiras. A mais completa técnica de se lidar com a inflação nas demonstrações contábeis existente no mundo, a Correção Monetária Integral, foi desenvolvida no Brasil. Realizando a contabilidade em moeda de capacidade aquisitiva constante, permite mensurar o verdadeiro desempenho das entidades descontando os efeitos inflacionários.  

O desenvolvimento dessa técnica contábil ajudou em muito na evolução do tratamento dos efeitos inflacionários para outros fins. A capacidade de trabalhar com taxas de juros reais tanto em aplicações quanto financiamentos, a utilização de técnicas de avaliação de investimento com tratamentos refinados da inflação, a averiguação dos efeitos tributários sobre ganhos e perdas nominais, a utilização de custos de reposição para apuração do lucro distribuível e tantas outras técnicas foram fortemente desenvolvidas nesse período. 

Felizmente, com o advento do Plano Real, a inflação foi domada. De patamares na casa de mais 40% ao mês nos primeiros meses de 1994, caiu para uma taxa média abaixo de 1% ao mês com somente alguns poucos períodos de alta mais intensa até os dias de hoje. Mas inflação baixa não significa ausência de inflação. De 1994 até os dias atuas já são mais de 500% de inflação acumulada!  

Baixas taxas levam ao falso entendimento de que não ocorrem efeitos inflacionários. Mas isso não é verdade: eles nunca deixam de existir, somente passam a ser menos relevantes. E uma menor preocupação com a inflação aliada ao fato da proibição da correção monetária dos balanços em 1995, levaram a uma perda de memória, uma redução dessa cultura do tratamento da inflação na gestão empresarial. Muitos profissionais com essa cultura já deixaram o mercado e os bancos escolares não dão mais a mesma importância a esse tema na formação dos novos profissionais. 

Ocorre que de setembro de 2021 em diante, o Brasil tem apresentado taxas de IPCA acumulado em 12 meses superior a 10% ao ano. E esse fenômeno de alta de inflação não é exclusividade do Brasil. Até mesmo países como os Estados Unidos e a Inglaterra estão apresentando taxas elevadas e demonstrando preocupação com um período duradouro de altas generalizadas de preços. Com isso, a relevância de como se lidar com a inflação tem voltado às discussões sobre gestão.  

E o Brasil precisa retomar essa forma de pensamento, não por pessimismo que a inflação será ruim de agora em diante, mas, principalmente, como posicionamento estratégico: saber lidar com a inflação permite uma visão mais clara dos resultados reais das atividades empresariais, permitindo uma melhor administração dos recursos. E isso vale tanto para altas taxas quanto para as menores. Não se deve jamais deixar de considerar a inflação na gestão empresarial.  

Não podemos abandonar tudo o que já foi feito de bom nesse país em relação ao tratamento inflacionário. Por essa razão, buscando contribuir com uma melhor gestão empresarial brasileira, o Programa Avançado de Controladoria e Contabilidade do Insper trás dentro do seu conteúdo uma preocupação de se lidar com a inflação, seus efeitos na contabilidade societária e gerencial, bem como nas finanças corporativas. 

O artigo é de autoria de Eric Aversari Martins, que é coordenador de Contabilidade e Finanças e professor do Insper. 

Eric Aversari Martins, coordenador de Contabilidade e Finanças e professor do Insper

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