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Congresso ANEFAC: A nova era dos negócios desafia o lucro tradicional  

Quando falamos em “A nova era dos negócios: o fim do lucro pelo lucro”, ninguém está rasgando planilhas, fechando balanços ou eliminando o resultado no fim do mês. O lucro continua sendo essencial, afinal, sem lucro não há empresa, não há investimento, não há emprego. 

O que muda, e muda de forma significativa, é o lugar que o lucro passa a ocupar nessa conversa. Ele deixa de ser o ponto final e passa a ser parte de um contexto mais amplo. Hoje, empresas e lideranças são chamadas a olhar além dos números: para as pessoas, para a sociedade, para o planeta e, principalmente, para o impacto real das decisões tomadas todos os dias. 

Vivemos um tempo em que propósito, valores e responsabilidade deixaram de ser apenas discursos inspiradores. Eles se tornaram elementos estratégicos para quem quer crescer de forma consistente e permanecer relevante no longo prazo. Essa nova era dos negócios nos convida a fazer perguntas tão simples quanto desafiadoras: que valor estamos gerando? Para quem? E com que impacto?  

Para responder a essa e outras perguntas, o 28º Congresso ANEFAC, trouxe a palestra “A nova era dos negócios: O fim do lucro pelo lucro”. Segundo Marta Pelúcio, conselheira da ANEFAC, que conduziu a mediação, é importante que haja uma redefinição do conceito de resultado financeiro, inclusive, que se faça uma reflexão mais profunda da própria contabilidade, que enfrenta questionamentos crescentes sobre clareza, utilidade social e capacidade de prevenir fraudes. Ela propôs reflexões fundamentais: que valor as empresas estão gerando, para quem e com quais consequências. Perguntas simples na forma, mas complexas na prática, especialmente quando confrontadas com um sistema contábil que, segundo os debatedores, se tornou excessivamente subjetivo, normativo e desconectado da compreensão pública. 

O palestrante Antoninho Trevisan, fundador da Trevisan Auditores e consultores e presidente do Conselho da Trevisan Escola de Negócios e da Trevisan Editora, além de membro do conselho consultivo da Universidade CIEE, foi contundente ao afirmar que a profissão atravessa uma crise de confiança. Casos recentes de grande repercussão, como o do Banco Master e o das Lojas Americanas, ilustram, segundo ele, um paradoxo preocupante: empresas com auditorias, governança, comitês e relatórios impecáveis no papel, mas estruturalmente frágeis ou capturadas por organizações criminosas. “Balanços lindos, empresas podres”, resumiu. 

Trevisan relatou sua experiência recente como convidado da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal, onde ouviu questionamentos diretos sobre a utilidade de contadores e auditores diante de fraudes bilionárias. Para ele, o problema não está apenas nos crimes em si, mas na incapacidade da linguagem contábil de comunicar riscos, essência e realidade. Relatórios de auditoria “cifrados”, incompreensíveis para legisladores, investidores e cidadãos, acabam afastando a sociedade do entendimento sobre o real valor, ou perigo, de uma empresa. 

Outro ponto sensível levantado foi a proliferação de normas e o avanço do subjetivismo. O excesso regulatório teria produzido múltiplas definições de lucro, avaliações dependentes de laudos periciais e uma paralisia prática dos profissionais, que passaram a terceirizar decisões básicas por medo de contestação. Segundo Trevisan, criou-se uma verdadeira “linha de produção de laudos”, muitas vezes moldados para atender interesses específicos, inclusive com apoio de inteligência artificial, o que enfraquece a credibilidade da informação contábil. 

A crítica se estendeu ao ambiente acadêmico. Para o palestrante, parte relevante da produção científica virou um fim em si mesma, voltada mais para progressão de carreira do que para impacto real na sociedade. A contabilidade, reforçou, não pode ser escrita apenas para contadores: precisa ser compreensível para analistas, investidores, gestores públicos e cidadãos comuns, aqueles que, no fim, tomam decisões com base nesses números. 

Em contraponto, Marta Pelucio destacou que a contabilidade é, em essência, interpretativa e que a objetividade do passado também não foi capaz de impedir fraudes históricas. Para ela, o avanço das normas internacionais transfere corretamente à gestão a responsabilidade sobre a essência das informações divulgadas. O diálogo, marcado por discordâncias públicas e respeitosas, deixou claro que o desafio não está em escolher entre objetividade ou subjetividade, mas em encontrar um equilíbrio que produza informação fiel, útil e inteligível. 

Além disso, é importante relembrar a própria evolução histórica da contabilidade no Brasil, mostrando que ela sempre respondeu às demandas econômicas e sociais de cada época, do foco no proprietário, nos anos 1940, à abertura ao mercado de capitais, nos anos 1970, e à convergência internacional no século XXI. A mensagem final é clara: se o contexto mudou, a contabilidade também precisa mudar de novo. 

Ao encerrar, Trevisan fez um apelo que sintetizou o espírito da palestra: mais ceticismo, mais empatia e mais intuição. Em um mundo dominado por tecnologia, controles automáticos e informações em tempo real, seria preciso recuperar a capacidade de questionar, de olhar o outro, empresas, clientes, pessoas, como ele realmente é, e de traduzir números em significado. Porque, na nova era dos negócios, lucro sem compreensão, confiança e impacto deixa de cumprir sua função social. 

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