Por muito tempo, a sustentabilidade ocupou uma espécie de “caixa do depois a gente vê” nas organizações. Em alguns momentos, foi tratada como custo. Em outros, como um discurso bem‑intencionado ou um capítulo isolado nos relatórios corporativos. Esse tempo ficou para trás. Hoje, sustentabilidade, traduzida na agenda ESG, faz parte do núcleo das decisões mais estratégicas das empresas.
O ESG deixou de ser apenas uma sigla e passou a orientar escolhas reais. Ele ganha relevância quando entra na estratégia, influencia investimentos, redesenha processos, orienta decisões de liderança e se incorpora à cultura organizacional. A discussão já não é mais sobre “fazer ou não fazer”, mas sobre como integrar o ESG de forma transversal, conectando governança, pessoas, operações e resultados, com responsabilidade, coerência e impacto mensurável, para quem está dentro da organização e para a sociedade como um todo.
E, nesse processo, um ponto é inegociável: as pessoas. Porque, no fim das contas, negócios são feitos por pessoas e para pessoas. Para mostrar que é possível alinhar sustentabilidade, governança e resultado financeiro sem perder a humanidade no caminho, a ANEFAC realizou no seu 28º Congresso, um painel intitulado “ESG: geração de valor pela implementação de políticas sustentáveis”, com os membros das comissões do Prêmio ANEFAC de Boas Práticas ESG, uma iniciativa que reconhece maturidade, consistência e impacto real na jornada ESG das organizações.
Moderado por Cecília Geron, vice-presidente de Administração e Finanças da entidade, a ideia central é que o ESG não é mais custo, retórica ou peça de marketing, mas um fator transversal que orienta decisões de investimento, governança, processos, cultura organizacional e gestão de riscos, sempre com impacto mensurável e foco em pessoas. Ela destacou que a sustentabilidade passou a integrar as decisões mais críticas das empresas. “Negócios são feitos por e para pessoas”, afirmou, defendendo a incorporação do ESG de forma integrada, conectando governança, operações, resultados financeiros e capital humano, sem perder a humanidade no caminho.
Para Onara Lima, conselheira do Capitalismo Consciente Brasil, membro do Conselho Consultivo de Sustentabilidade na ZURICH Seguros e Comitê de Sustentabilidade no Grupo Patrimar, o ESG trata essencialmente de “como fazemos negócio”. Ela elencou os principais fatores de pressão que hoje definem a resiliência empresarial: emergência climática, escassez de recursos, reconfiguração do fluxo de capitais e mudanças no perfil geracional. Segundo ela, a inação tem custo elevado, seja em perdas operacionais, seguros mais caros ou interrupções em cadeias globais, e sustentabilidade deve ser encarada como eficiência e inovação. “Todo impacto custa caro”, resumiu, defendendo que resíduos, por exemplo, sejam tratados como sinais de ineficiência de processos.
A discussão avançou para o papel do mercado de capitais, com Carlos Takahashi, chairman da BlackRock Brasil e diretor da Anbima. Ele destacou que os riscos ambientais, sociais e de governança vêm sendo gradualmente precificados e que a informação qualificada é decisiva para a alocação de capital. Com mais de R$ 10 trilhões sob gestão na indústria de fundos no Brasil e centenas de bilhões em títulos, muitos deles sustentáveis, o mercado exige dados íntegros, transparentes e comparáveis. Nesse contexto, ela ressaltou a importância da adoção dos padrões IFRS S1 e S2, que devem se tornar obrigatórios a partir de 2026/2027, como um passo essencial para dar consistência às decisões de investimento e ampliar a interoperabilidade com mercados globais.
Já Gisele Batista, diretora da Harpia Meio Ambiente, LinkedIn Top Voice em Sustentabilidade e representante da ANEFAC no ESG Group da International CFO Alliance, trouxe uma visão mais estrutural: o ESG amplia o próprio conceito de risco e redefine o que significa valor para uma organização. “Não estamos falando apenas de lucro, mas do futuro das empresas”, afirmou, lembrando que sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados. Para ela, o sucesso corporativo passa a ser medido pela capacidade de geração de valor no longo prazo, considerando a chamada dupla materialidade, o impacto do mundo sobre a empresa e da empresa sobre o mundo. Exemplos práticos, como varejistas impactados por ondas de calor que já entram nas planilhas de custos, ilustraram como eventos climáticos deixaram de ser abstrações para se tornarem variáveis financeiras concretas.
Além disso, o debate avançou para uma camada mais estrutural da agenda ESG, ao reconhecer que sustentabilidade, isoladamente, pode já não ser suficiente em um sistema econômico que opera além dos limites do planeta. Estudos científicos recentes indicam que sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados, o que reforça a urgência de estratégias que vão além da mitigação e avancem para a regeneração, restaurando capital natural, social e institucional. Essa perspectiva amplia também o conceito de risco corporativo, incorporando a dimensão intergeracional, na qual gerações futuras passam a ser reconhecidas como stakeholders legítimos, inclusive no âmbito regulatório.
Nesse contexto, o mercado financeiro tem sinalizado intolerância crescente ao greenwashing, entendendo a falta de integridade e transparência como um risco material, com impactos diretos sobre valor de mercado, reputação e acesso a capital. Como argumenta Rebecca Henderson, em Reimagining Capitalism in a World on Fire, externalidades ambientais e sociais tendem inevitavelmente a ser precificadas, e empresas que falharem em reconhecer esse movimento estrutural enfrentarão um custo crescente de inação e perda de confiança.
