Em um cenário marcado por agendas intensas, metas e decisões estratégicas, a vida profissional e pessoal muitas vezes avança em ritmo acelerado, com pouco espaço para reflexão. Nem sempre há tempo para avaliar se o caminho percorrido mantém equilíbrio entre trabalho, relações, saúde e bem‑estar, ou se determinadas dimensões acabam sobrepostas a outras ao longo do tempo.
Essa reflexão ganha ainda mais relevância no contexto corporativo. Se a trajetória de vida fosse analisada como um projeto, ela estaria alinhada aos valores e objetivos propostos? A longevidade é uma realidade, mas o desafio está em garantir qualidade, propósito e coerência nesse percurso — base essencial para sustentar resultados consistentes e uma vida que faça sentido ao longo dos anos.
Viver mais e melhor, com propósito, equilíbrio e saúde, foi o eixo central de uma das reflexões apresentadas no 28º Congresso da ANEFAC. André Giordano, head de Inteligência de Mercado e Saúde da entidade, conduziu o público a uma provocação conceitual sobre escolhas, prioridades e a forma como vida profissional e pessoal vêm sendo conduzidas, propondo uma autoavaliação honesta sobre resultados e expectativas ao longo do tempo.
Com mais de quatro décadas dedicadas à medicina, o professor doutor Carlos Alberto Pastore, cardiologista do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas, trouxe uma abordagem didática e baseada em evidências científicas sobre os caminhos da longevidade saudável. Segundo ele, viver mais não depende apenas de avanços tecnológicos, mas de decisões cotidianas fundamentadas em prevenção, equilíbrio e cuidado integral com o corpo e a mente.
Entre os principais pilares apresentados estão alimentação adequada, qualidade do sono, prática regular de atividade física, atenção à saúde mental e gestão do estresse. Pastore ressaltou que doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de mortalidade no Brasil e no mundo, e que a prevenção continua sendo o instrumento mais eficaz para evitar seu avanço silencioso.
Ao abordar a relação entre mente e corpo, o cardiologista explicou que o funcionamento saudável do cérebro depende do equilíbrio entre cognição e emoção. Tensões emocionais não elaboradas tendem a se manifestar fisicamente, processo conhecido como somatização, contribuindo para doenças crônicas. Nesse contexto, o estresse não é necessariamente um vilão: quando associado a um propósito claro, pode ser um fator de estímulo. O risco está no estresse crônico, contínuo e sem direção.
A saúde mental foi apontada como um dos grandes desafios contemporâneos, especialmente no ambiente corporativo. O crescimento dos casos de depressão, ansiedade e distúrbios do sono, intensificado após a pandemia, exige atenção contínua das organizações. Para Pastore, empresas que não incorporarem políticas de cuidado emocional tendem a enfrentar impactos diretos na produtividade e nas relações de trabalho.
O sono, muitas vezes negligenciado, recebeu destaque como elemento central da longevidade. O especialista explicou a importância dos ciclos hormonais, do sono profundo e da fase REM para o equilíbrio emocional e cognitivo, além dos riscos associados à apneia do sono e ao uso excessivo de telas, álcool e medicações inadequadas.
A atividade física também foi abordada sob uma nova perspectiva. A partir dos 50 anos, Pastore ressaltou que exercícios de força passam a ser prioritários para manter mobilidade, equilíbrio, autonomia e saúde cardiovascular, enquanto atividades aeróbicas atuam como complemento.
No campo da alimentação, o médico destacou que cinco das dez principais causas de morte no mundo moderno estão diretamente ligadas à dieta. O cuidado com o consumo excessivo de açúcar, gorduras inadequadas e ultraprocessados, assim como a atenção à saúde intestinal e à microbiota, são decisivos na prevenção de doenças crônicas.
Outro ponto de grande interesse foi a evolução das tecnologias médicas, desde exames de diagnóstico precoce até terapias inovadoras, como os medicamentos agonistas de GLP‑1, utilizados no controle da diabetes e da obesidade. Quando bem indicadas e acompanhadas por profissionais, essas terapias têm demonstrado impacto positivo não apenas na perda de peso, mas também na redução de riscos cardiovasculares.
Encerrando a apresentação, Pastore reforçou uma mensagem central: a longevidade de qualidade é resultado direto de prevenção, conhecimento e escolhas conscientes. Mais do que tratar doenças, o novo paradigma da medicina está em antecipá‑las, permitindo que as pessoas vivam mais, e melhor.
