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Congresso ANEFAC: Nova ordem econômica redefine estratégias empresariais em painel sobre geopolítica, inflação e negócios 

As transformações estruturais da economia global e seus impactos diretos sobre os negócios estiveram no centro do painel “A nova ordem econômica e seus reflexos nos negócios”, realizado durante o 28º Congresso ANEFAC. A ideia foi provocar uma análise de um cenário marcado por tensões geopolíticas, inflação persistente e mudanças profundas nas cadeias produtivas, com reflexos relevantes para líderes empresariais e organizações que atuam no Brasil. 

Ao realizar a abertura do painel, Daniel Maranhão, CEO da Grant Thornton Brasil, destacou o papel da educação e da liderança responsável em um contexto global de instabilidade. Em um ambiente frequentemente atravessado por escândalos, fraudes e maus exemplos institucionais, os participantes reforçaram a importância de esclarecer responsabilidades dentro das organizações, especialmente no que diz respeito à governança, aos comitês de auditoria e ao papel de contadores, auditores e conselheiros. Segundo ele, há um desequilíbrio crescente na compreensão das funções e deveres de cada agente corporativo, o que contribui para crises de confiança e para a transferência indevida de responsabilidades. 

Com mais de 30 anos de atuação no mercado financeiro internacional, o economista Roberto Dumas, professor de economia internacional do Insper, afirmou que o mundo atravessa mudanças estruturais, e não apenas conjunturais,  desde a crise financeira de 2008, intensificadas por eventos recentes como a pandemia da COVID-19, a guerra entre Rússia e Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio. 

Segundo Dumas, não se trata do fim da globalização, mas de sua fragmentação, com a formação de zonas de influência e estratégias como near-shoring e friend-shoring. Esse redesenho das cadeias globais de valor reduz as vantagens comparativas, aumenta custos logísticos, pressiona preços e obriga empresas a abandonarem modelos como o just in time, passando a operar com estoques maiores para garantir resiliência operacional. 

O economista também destacou os impactos do fechamento de rotas marítimas estratégicas, como os estreitos de Ormuz e Bab-el-Mandeb, que obrigam navios a percorrer trajetos mais longos, encarecendo frete, seguro e combustível. Esses fatores, segundo ele, tornam a inflação mais resistente e dificultam a atuação dos bancos centrais, que enfrentam hoje o risco da estagflação, combinação de baixo crescimento econômico com inflação elevada. 

Na avaliação de Dumas, o cenário global aponta para juros “mais altos por mais tempo”, especialmente diante dos choques de oferta associados a conflitos geopolíticos e da destruição de infraestrutura energética. O impacto se espalha por toda a cadeia produtiva, desde o aumento do preço do petróleo e dos fertilizantes até o encarecimento de alimentos e serviços essenciais. 

Para o Brasil, o economista destacou uma situação ambígua. Por um lado, o país surge como destino atrativo para investidores internacionais que buscam mercados relativamente mais estáveis fora da Europa e da Ásia. Por outro, permanece vulnerável à inflação importada, à dependência de fertilizantes e às pressões fiscais internas, agravadas em períodos eleitorais. “Hoje, o investidor não busca o melhor país, mas o menos ruim”, sintetizou. 

A visão da gestão financeira na prática 

Representando a perspectiva corporativa, Tatiane Mendonça, CFO da Swissport, compartilhou os efeitos concretos da nova ordem econômica sobre empresas que operam em setores de margens estreitas, como o aéreo e o de serviços aeroportuários. Com atuação em dezenas de países, a Swissport enfrenta desafios simultâneos de queda de demanda, aumento de custos e alta volatilidade operacional. 

Tatiane destacou que instabilidades globais reduzem o número de voos, impactando diretamente a receita de prestadores de serviço que cobram por operação realizada. Ao mesmo tempo, custos fixos elevados, como mão de obra intensiva, treinamento e combustíveis, limitam a capacidade de ajuste. “Cortar custos em uma operação com milhares de funcionários e salários baixos é extremamente complexo”, afirmou. 

Outro ponto sensível abordado foi o alto turnover e o volume de passivos trabalhistas no setor, fatores que precisam ser incorporados à precificação e à estratégia financeira. Diante desse cenário, a executiva ressaltou que empresas precisam se preparar para o pior, reduzindo investimentos, redefinindo prioridades e buscando eficiência operacional sem comprometer a continuidade do negócio. 

Ao final do painel, ficou claro de que o ambiente econômico atual exige dos líderes empresariais paciência, leitura estratégica de cenário e capacidade de antecipação de riscos. Proteger o balanço, preservar liquidez e adotar decisões fundamentadas em análises realistas, e não em expectativas de curto prazo, foram apontadas como práticas essenciais. 

Apesar do cenário adverso, Tatiane destacou que o Brasil também pode encontrar oportunidades em meio ao caos, especialmente por sua capacidade histórica de adaptação. “É um momento que exige frieza, mas também a habilidade de enxergar oportunidades que talvez não existissem em ambientes mais estáveis”, concluiu. 

A mensagem é clara: a nova ordem econômica já está em curso e impõe desafios inéditos à gestão, à governança e à estratégia empresarial, exigindo líderes mais atentos, preparados e conscientes do impacto das decisões tomadas em um mundo cada vez mais interconectado e instável. 

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